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Toda a sociedade crê nos seus mitos. Também a nossa, que muitos julgavam irreversivelmente descrente, idealiza determinadas construções mentais, valores sociais e morais e estereótipos, que são decisivos para o comportamento dos indivíduos.

O nosso imaginário foi permeado por construções, valores e estereótipos deste tipo. Quando olhamos o mundo à nossa volta, existe sempre um quadro mental e moral que empregamos para valorizá-lo e dotá-lo de significado.

A paisagem dá-nos uma perspectiva privilegiada e singular para identificarmos (e reflectirmos sobre) o conjunto de novos mitos que se estão a formar e consolidar bem à frente dos nossos olhos. Na verdade, uma parte central destas novas mitologias não se poderia constituir sem a paisagem, como espero demonstrar nesta nova série de posts.

Quando todos pensávamos que o espaço virtual da cibernética, as redes modernas de transportes (avião, TGV, auto-estradas, metropolitano) ou essa anti-paisagem que é o  interior do shopping estavam em vias de erradicar a paisagem da contemporaneidade, de torná-la supérflua, desnecessária, arqueológica, eis que a paisagem se afirma como mediador central nas relações sociais e nas comunicações dos humanos entre si.

Como dizia Montaigne, a nossa condição é maravilhosamente corporal. Não podemos efectivamente prescindir do nosso corpo. E, portanto, tão pouco das materialidades à nossa volta (que dão um sentido à existência do nosso corpo), de entre as quais a paisagem, a principal de todas elas.

O primeiro mito que tratarei nesta série é o mito da infinitude.

Revista espanhola da minha colecção privada de itens publicitários, Évora, 2011, Pedro Duarte

Um apartamento com amplas vistas, de preferência para o mar, é o desejo de qualquer um de nós. Esta necessidade contemporânea de amplitude, esta aversão à claustrofobia traduz-se igualmente na moda dos cruzeiros, onde o único limite é a linha do horizonte no alto mar.

Antes reservada à religião ou à filosofia, a infinitude é hoje avidamente procurada pelos indivíduos mais successful da nossa sociedade. E é através da paisagem, do seu domínio visual, que essa infinitude pode ser efectivamente alcançada. Na terra ou no mar, no ar ou em água, não há, nos círculos mais prósperos do Ocidente, quem não sonhe hoje com ela. Num hotel em cima do mar ou numa ilha privada.

paisagem infinita (que hotéis, resorts, condomínios privados, iates e cruzeiros proporcionam aos seus utentes, pelas amplas vistas a que dão acesso) simula o pequeno império a que os 2500 impactos publicitários diários que recebemos (na tv, no jornal, na estrada, na caixa do correio, na prateleira do supermercado) nos levam a desejar: um império repleto de maravilhosas mercadorias. Explorar a infinitude da paisagem é assim o artifício a que recorrem aqueles que, das suas fortalezas privadas, desejam estender simbolicamente o seu domínio, expandir o seu império individual, torná-lo real, material, sensorial, palpável, experienciável pelos seus ou por outros corpos.

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Schweizer Impressionen 3, tinta acrílica sobre tela, 125 x 220 cm, 2002, Nadja Ziller

A fenomenologia é uma corrente de pensamento que investiga um domínio em especial, aquele da experiência. Mais concretamente, procura esclarecer como nós experienciamos. Mas bastaria abrirmos a Encyclopedia of Phenomenology da Kluwer Academic Publishers (1997), para percebermos como se trata de uma corrente heterogénea, sendo contabilizados naquela enciclopédia pelo menos sete tipos diferentes de fenomenologia. Genericamente, a fenomenologia estuda o homem, a natureza da sua consciência (em Husserl) e da sua existência (em Heidegger), através das experiências activas e passivas que este tem com os fenómenos que participam do seu mundo.

Ao centrarem-se nessas experiências, os fenomenologistas perceberam a importância das condições contextuais inerentes às mesmas. Daí, o seu interesse pelo contexto material de cada experiência, isto é, pelas condições materiais que possibilitam a ocorrência das experiências. Por conseguinte, a fenomenologia estuda o homem como estando permanentemente ligado ao mundo; e o mundo como dependendo da forma como o homem o percepciona e lida com ele. 

Neste sentido, conhecer fenomenologicamente a paisagem implica concebê-la  não como abstracta, objectiva, neutra, independente dos corpos que com que ela se relacionam, mas como experienciada através dos sentidos: como vivida.

Os fenomenologistas sublinham que aquilo que, num dado horizonte histórico, a paisagem é, enquanto materialidade permanentemente aberta à experiência, depende das formas como ela é subjectivamente percebida pelos actores sociais, através da visão, do olfacto, do tacto, da audição e, porque não, do paladar. Uma fenomenologia da paisagem não deve prescindir de compreender como saboreia o homem a parte comestível desta.

Os verdadeiros interessados na relação entre paladar e paisagem devem consultar plantes_fleurs_comestibles . Bom apetite!

ps: este ano decidi finalmente (anos depois do meu amigo José Salgueiro me ter aconselhado) experimentar comer fetos, que crescem em abundância por estas bandas… e tenho a dizer que são bem deliciosos!

 

“Landscape is not merely the world we see, it is a construction, a composition of that world. Landscape is a way of seeing the world (…) projected on to land and having its own techniques and compositional forms; a restrictive way of seeing that diminishes alternative modes of experiencing our relations with nature.”            Denis Cosgrove

Para ver, basta clicar aqui http://www.cityarts.com/adrianasa/paintings/

Matterhorn (da colecção 'Alpen'), tinta acrílica sobre tela, 150 x 200 cm, 2005, Nadja Ziller

 

Ao contrário da grande maioria dos animais, o homem não vê simplesmente a realidade com que fisicamente se depara: os factos brutos ocultam-se, dissolvem-se na abstracção simbólica do seu pensamento. Ele não é capaz de ver senão uma versão da realidade, uma versão metafórica da totalidade do seu mundo circundante. “A realidade física parece recuar na proporção em que a actividade simbólica do homem avança”, observava o filósofo Ernst Cassirer. O pensamento simbólico coloca diante dos olhos dos homens metáforas, versões subjectivas, imaginadas da realidade. Se a capacidade para imaginar e forjar múltiplas estratégias culturais é o traço distintivo da nossa espécie, é através da imaginação que compreendemos e construímos o mundo e a sociedade em que vivemos.

 A paisagem, concebida como uma forma de ver o mundo, resulta precisamente das faculdades de projecção da imaginação. Ela é o espelho que reflecte aos humanos, sob múltiplas formas e aparências, as suas próprias visões e sonhos.  

Se a paisagem abre determinadas possibilidades à imaginação e à fantasia ela pode também fechar outras. Com efeito, de um uso regular da paisagem, a imaginação constrói as suas barreiras, não havendo paisagem que não busque uma certa configuração da imaginação. A paisagem impõe assim a reprodução de conjuntos sistemáticos e prescritos de compreensões, significações e representações, participando num constrangimento social da fantasia, que não faz mais do que reflectir o triunfo de certas formas de ver do mundo.

 

Pátio em Prenzlauer Berg, Berlim, 2007, Andrea Morgenstern

 

A paisagem é para ser vivida e desfrutada, com todos os sentidos e sem restrições.

Plaça de Sant Felip Neri, Barcelona, 2009, Pedro Duarte

A guerra civil espanhola ficou gravada, ou cravada através das suas balas, nesta fachada que nos permite reviver os fusilamentos das tropas franquistas.

A nossa memória constrói-se através das experiências que temos no mundo material que nos rodeia; mais precisamente nos lugares, arquitecturas e monumentos que formam as suas paisagens. As memórias, sejam elas individuais ou colectivas, sedimentam-se pois nas paisagens de que fazemos parte. Portanto, qualquer intervenção que hoje se faça na paisagem irá necessariamente interferir com a forma como a nossa memória é construída.

Essa interferência é naturalmente mais profunda quando a intervenção seja realizada em lugares de memória. Nestes lugares, autênticas falhas no espaço que abrem ao sujeito contemporâneo a possibilidade de evocar tempos passados, cada intervenção na paisagem é parcialmente responsável pela forma como decorre a relação que indivíduos do presente constroem com tempos passados. Por outro lado, cada uma destas intervenções contemporâneas corre o risco de transformar, em função de conceitos e ideologias do presente, a substância material que nos comunica o passado: o que ela se arrisca a deformar é o próprio passado.

Se o espaço é essencialmente contínuo, a paisagem é pelo contrário fragmentária, variando de acordo com quem a está a usar, com o modo como é valorizada, categorizada, subdividida e com as diferentes estratégias (políticas, económicas, sociais, religiosas, ideológicas) em que é integrada. Referindo-se à paisagem, Tim Ingold sublinhava: “It is not ‘land’, it is not ‘nature’, and it is not ‘space’.”

Para este antropólogo, a característica determinante da paisagem reside no seu carácter qualitativo (simbólico, temporal, social) e na sua heterogeneidade, resultantes de uma profunda interactividade com as pessoas – os agentes que a constroem, usam, transformam e habitam. Deste ponto de vista, a paisagem não é uma realidade uniforme, universal, neutra ou abstracta, mas o produto contextual de relações culturais, sociais, políticas e económicas.