Matterhorn (da colecção 'Alpen'), tinta acrílica sobre tela, 150 x 200 cm, 2005, Nadja Ziller

 

Ao contrário da grande maioria dos animais, o homem não vê simplesmente a realidade com que fisicamente se depara: os factos brutos ocultam-se, dissolvem-se na abstracção simbólica do seu pensamento. Ele não é capaz de ver senão uma versão da realidade, uma versão metafórica da totalidade do seu mundo circundante. “A realidade física parece recuar na proporção em que a actividade simbólica do homem avança”, observava o filósofo Ernst Cassirer. O pensamento simbólico coloca diante dos olhos dos homens metáforas, versões subjectivas, imaginadas da realidade. Se a capacidade para imaginar e forjar múltiplas estratégias culturais é o traço distintivo da nossa espécie, é através da imaginação que compreendemos e construímos o mundo e a sociedade em que vivemos.

 A paisagem, concebida como uma forma de ver o mundo, resulta precisamente das faculdades de projecção da imaginação. Ela é o espelho que reflecte aos humanos, sob múltiplas formas e aparências, as suas próprias visões e sonhos.  

Se a paisagem abre determinadas possibilidades à imaginação e à fantasia ela pode também fechar outras. Com efeito, de um uso regular da paisagem, a imaginação constrói as suas barreiras, não havendo paisagem que não busque uma certa configuração da imaginação. A paisagem impõe assim a reprodução de conjuntos sistemáticos e prescritos de compreensões, significações e representações, participando num constrangimento social da fantasia, que não faz mais do que reflectir o triunfo de certas formas de ver do mundo.