Archives for the month of: Maio, 2011

Escultura em frente ao hotel Burj Al Arab, Dubai, 2007, Martin Parr

Modelo hoje dominante de organização da economia, implementado em toda a extensão do planeta com a bênção sagrada de jornalistas, opinion-makers e outros comunicadores igualmente eficientes, contratados explicitamente para o defender, o neo-liberalismo é responsável pelo idílio bucólico, harmónico e pastoril em que se tornou a paisagem do mundo que habitamos.

Este idílio, do qual TODOS nos honramos de ser co-responsáveis (ainda que uns se possam gabar de ser um nadinha mais do que outros), presenteia-nos diariamente com um imenso rol de factos, acontecimentos e circunstâncias de que se podem orgulhar os nossos políticos e, fundamentalmente, quem os elegeu:

– gentrificação de velhas capitais;

– recuperação dos padrões coloniais de segregação residencial;

– favelas sem esgotos, água canalizada ou latrinas, habitadas por um sexto da humanidade, periodicamente arrasadas para dar lugar a condomínios fechados ou simplesmente a auto-estradas que permitem a quem vive nas mansões campestres aceder rapidamente ao centro da sua metrópole;

– bairros dentro de muros, vigiados dia e noite por câmaras e guardas armados até aos dentes;

– magníficos monocultivos de perder de vista, ultra-intensivos, ultra-químicos, ultra-poluídos, ultra-tudo;

– ilhas privadas;

– novas cidades de luxo com os seus majestosos ‘lifestyle centers’, réplicas dos centros históricos das cidades antigas;

– etc.

Decidi começar esta nova série – onde cantarei, se calhar mais com o recurso a fotografias do que a palavras, os lugares de sonho dos Senhores que dominam a economia e a sociedade, isto é, o momento histórico presente – com um recanto muito especial do planeta, o sumptuoso e literalmente onírico Dubai. Recanto este responsável por muitas, e não apenas uma, paisagens de sonho. Dessas que não deixam indiferentes os Cavacos Silvas e os Silvios Berlusconis tão trivialmente abundantes nesta aldeola global em que se converteu o nosso astro, que alguém um dia se lembrou de apelidar com essa palavrinha tão singela e ao mesmo tempo sublime: terra.

Terra?

Marina, Dubai, 2006, Thomas Weinberger

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Relativamente à noção de lugar, o Marcos (um grande abraço para ti) deixou recentemente estas palavras na caixa de comentários citada, que me poderiam servir de inspiração para dar continuidade à série interminável de posts sobre a fenomenologia da paisagem:

“De certa maneira, todo o espaço só se converte num ‘lugar’ mediante essa ocupação integrada, como dizes. Num lugar, quer dizer, num micromundo único, vivo, com alma e sentido e distância e proximidade. Um ‘aqui’ que não existe em mais sítio nenhum, um ‘aqui’ que se funde no ‘agora’ que somos.” (o sublinhado é meu, as palavras do Marcos, a 21 de Maio)

Palco de experiências, vivências e ocorrências, o lugar deriva da humanização de uma parcela perfeitamente delimitada de espaço. Neste processo em que, ao projectarem sobre fragmentos do espaço a sua existência, as sociedades humanas criam lugares, esse espaço dota-se de atributos seus: personalidade, presença, identidade, afectividade.

Praça em Hospitalet, Barcelona, 2002, Joan Villaplana

O espaço é então aberto à experiência humana – à sensação e ao pensamento. É aberto ao confronto com o único animal que não se limita a adaptar-se a ele tal como a natureza lho apresenta, mas a transformá-lo, a (re)criá-lo, nele projectando os seus desejos, os seus sonhos, as suas utopias. Como relatava num ensaio que ficou célebre o historiador das religiões Mircea Eliade:

“O povoamento de uma nova região, desconhecida e inculta, equivale a um acto de criação (…): a transformação do caos em Cosmos pelo acto divino da Criação. (…) Os conquistadores espanhóis e portugueses apropriavam-se em nome de Jesus Cristo das ilhas e continentes que descobriam e conquistavam. A instalação da Cruz equivalia a uma ‘justificação’ e à ‘consagração’ da região, a um novo ‘nascimento’, repetindo assim o baptismo (acto da criação).”

Como mostra o exemplo de Eliade, o lugar nasce da transformação do caos que reina no espaço selvagem e inculto em campo semântico, ordenado por símbolos que operam como mediadores de ideologias e como agentes de socialização e de reprodução cultural. Ancorado em referências puramente simbólicas, o homem torna-se capaz de se integrar num meio hostil. É então para sentir-se em casa no mundo que ele cria os seus lugares. Por isso muitos desses lugares, “centros profundos da existência humana” na expressão do geógrafo Edward Relph, despertam-lhe sensações de pertença, de intimidade e de segurança. A organização simbólica do espaço pela criação de lugares é um dos meios que cada colectividade dispõe para constituir a sua identidade. Referências no espaço, os lugares, em torno dos quais inevitavelmente gravita a vida do homem mais arcaico ao mais moderno, são as âncoras que nos ligam ao mundo circundante, levando-nos a descobrir a sua singularidade social, emocional e simbólica, ao mesmo tempo em que nos revelam a nossa própria identidade.

Sintetizando, “o lugar”, como escrevia Lucy Lippard, “é temporal e espacial, pessoal e político. Demarcação estratificada, repleta de histórias humanas e de memórias, o lugar possui extensão assim como profundidade. Define-se por conexões, por aquilo que o circunda, que o formou, por aquilo que aí ocorreu, por aquilo que aí irá ocorrer.”

Ora, e falando agora do que a este post diz respeito, também a paisagem é temporal, pessoal e política; também ela se encontra repleta de histórias e memórias. Por isso, entendê-la é uma tarefa subjectiva por excelência. Obriga-nos a projectar memórias, histórias, conceitos, conhecimentos, ideologias, enfim, todo um volátil universo de fantasia, sobre as formas físicas, materiais, autênticas que nos envolvem.

Cemitério dos Prazeres, Lisboa, 2003, Andreia Almeida

Nesse sentido, todos temos uma palavra a dizer sobre a paisagem. E a paisagem estaria incompleta sem todas essas palavras que a nomeiam e descrevem. Sem (pelo menos uma parte d’) estas, aquela não existiria sequer; haveria apenas, em seu lugar, o espaço abstracto, indiferenciado, neutro (o espaço que um astronauta americano ou chinês encontrará amanhã na superfície de um outro planeta). Mas, a partir do momento em que as nossas palavras penetrassem esse espaço, ele perderia a sua neutralidade, a sua abstracção; e tornar-se-ia concreto, valorizado, significante; tornar-se-ia paisagem.

Paisagem é um conceito para não-matemáticos, para não-geómetras e, fundamentalmente, para não-economistas – e é uma das grandes calamidades do nosso tempo o facto de serem justamente os economistas a definir todos os seus contornos; os economistas substituem a paisagem pelo espaço do capital, dos investidores, da especulação, da mercadoria, enfim, por um espaço que não necessita de habitantes, de utentes, de mentalidades, de valores, de significados, de memórias, de passado; um espaço que já não é, por isso, exactamente uma paisagem. 

Paisagem é um conceito para psicólogos – outra das calamidades actuais reside no facto de os psicólogos ainda não terem percebido a importância da paisagem para entender o homem que julgam conhecer; para eles o homem vive fora das materialidades do mundo; para a esmagadora maioria de psicólogos, o ser-no-mundo de Heidegger é um conceito totalmente desconhecido. (Afinal, alguém já ouviu a palavra paisagem vinda da boca de algum psicólogo?)

Detalhe de fachada, Lisboa, 1995, Andrea Morgenstern

Sem que os portugueses sejam disso conscientes, Portugal é um país com pátina. Estou igualmente certo de que ninguém neste rectângulo estará de acordo de que a coisa mais bela que há em Portugal (ainda que na contemporaneidade essa coisa se vá tornando menos presente, pela intervenção do capital anónimo que unifica a paisagem para aí fazer singrar a especulação) é a pátina.

Um italiano renascentista deliraria com as tonalidades e texturas que as coisas e os lugares adquirem no nosso velho, e a espaços mágico,  Portogallo. Aqui, tudo adquire uma pátina que enriquece decisivamente a nossa experiência quotidiana das superfícies e das texturas. Até os prédios recém-inaugurados se enchem rapidamente de pátina. Parece que já nasceram com ela. Mas, mais bela é a pátina dos prédios de que já todos olvidaram o dia da sua inauguração.

Detalhe de fachada, Lisboa, 1995, Andrea Morgenstern

Não sei se é simplesmente dessa grande virtude nacional que é o desleixo, se dos maus acabamentos exteriores dos edifícios, se da humidade ou da chuva abundantes, sei apenas que as paisagens urbanas portuguesas estão salpicadas dessa coisa que neste post decidi chamar pátina.

Onde eu vivo, quer dizer, muito longe das paisagens urbanas, até as oliveiras se enchem de uma espessa película verde que, apesar de eu saber perfeitamente tratar-se de musgo, não sei distinguir do verdete que se forma sobre o bronze antigo, nem de qualquer outra pátina.

Mas o que tem assim de tão especial a pátina? A sua magia reside, para mim, no que ela contém de indefinido, de aventura, de jogo, de arte. E de tempo: a pátina assinala a temporalidade da matéria, do mundo; a transitoriedade das coisas, dos lugares, das paisagens. (E confesso aqui, dissimulado no interior deste parêntesis, que aprender a amar o que a transitoriedade – e em última instância a morte – possui de belo é um dos meus projectos de vida; e, para os que me conhecem, acrescento que é justamente por possuir tal projecto que me interessa tanto Debord: sua arte, pensamento e biografia.)

Jardim público, Évora, 2010, Andrea Morgenstern

A pátina é, por outro lado, uma metáfora daquilo que não controlamos, que não conhecemos e que, logo, nos ultrapassa.

A pátina não tem um autor – para além da história (natural). A pátina não tem uma cultura; ela é precisamente o que de não cultural  há na cultura material. A pátina não tem um momento histórico concreto; ela está de certo modo fora da história, apesar de ser uma expressão da mudança, da transformação. A pátina é o que fica nas coisas dessa ininterrupta e intrépida corrente (que o homem não pode nem sabe dominar) que é a passagem do tempo.

A pátina é de certa forma o que há de radicalmente espontâneo e livre  na cultura material. E é por isso que (num mundo onde a espontaneidade radical e a liberdade estão a priori banidas das relações sociais) ninguém ousa estudá-la e, menos ainda, compreendê-la.

Em Portugal, pelo menos, todos podemos desfrutá-la.

A história da paisagem não raras vezes se cruza com aquela da música, como bem exemplificam os jardins e a música barrocos ou os jardins e a música românticos. No caso do Barroco, encontramos o mesmo dinamismo, decoro e exuberância na Orangerie do Palácio de Versailles ou nas Variações Goldberg de Bach.

Sem possuir nada comparável aos jardins de Versailles, Detroit encontra a sua pérola no outro extremo das realizações humanas: a indústria automóvel. As sedes da Ford, da Chrysler e da General Motors seriam o seu único ex-libris caso a grande cidade do Michigan não tivesse também produzido o techno. De qualquer forma, o techno, graças a uma sonoridade minimal e robótica, não contribuiria senão para afirmar a sua fama de Motor City.

O techno é um dos géneros musicais mais inovadores que a música popular produziu nos últimos trinta anos – e possivelmente aquele que mais preconceitos foi capaz de gerar. A sua agressividade é indissociável da agressividade da paisagem de Detroit, a qual, em meados da década de 80 do séc. passado aquando da invenção do techno, resultava das seguintes particularidades sócio-económicas: colapso económico, despovoamento e abandono do centro da cidade, wasteland sem fim, ruína das classes médias, taxa de homicídios anormalmente elevada. Uma paisagem desoladora e violenta, e ainda por cima repleta de fábricas de automóveis, não poderia parir outra arte. O documentário conta o resto. 

Foto da colecção 'Parking Spaces', Tóquio, 2002, Martin Parr.

Pois é! É o almejado buraco onde se pode arrumar essa gigante cadeira de rodas (para gente saudável mas preguiçosa e com um profundo ódio ao seu próprio corpo) que é o carro.

Pedalando pela cidade, Berlim, 2009, Andrea Morgenstern.

Será que ainda não inventaram alternativas cómodas e eficazes ao carro? Mas se essas alternativas são já tão velhinhas… (Enfim, o que ainda não inventaram foi a mentalidade capaz de fazê-las penetrar a práxis, o quotidiano, a paisagem.)

Quanta preguiça!!!

De todas as paisagens contemporâneas, há uma que passa despercebida por quase toda a gente. E é talvez, de todas, a mais exuberante: o campo em flor.

Como é habitual no mês de Maio, fui ontem com o José Salgueiro ao campo, colher ervas, para conservar para o resto do ano e usar em óleos, comidas ou chás (ele, como nos outros anos, mostrou-me que nem os seus 92 anos lhe roubam o vigor e a energia com os quais nunca poderei nem de perto competir).

Apanhei alguma erva de São João (ou hipericão), já razoavelmente madura, que habitualmente uso para fazer o óleo com que trato a minha psoríase. Também apanhei bastante erva de São Roberto e salva em flor, com a qual costumo fazer chás deliciosos, que também uso para tratar as primeiras ameaças de amigdalite, que costumam surgir com a chegada do Inverno.

Fiquei ainda a conhecer algumas ervas que, na minha ignorância resultante de ter crescido entre betão, fumo e alcatrão, desconhecia: o hissopo, a arruda e a cebola-albarrã. Para o combate a esta ignorância, que até aos meus vinte e picos me impedia de me curar sem ter de dar um generoso contributo à indústria farmacêutica – da qual quase todos estamos mais do que nunca reféns -, recomendo a leitura do livro de um verdadeiro mestre das ervas alentejanas:

Aos interessados, posso adiantar que José Salgueiro não se deita antes da madrugada, por estar a preparar novo livro, sobre aquilo a que chama alimentação saudável. Estou certo de que somos muitos à espera que o termine.

Foto da colecção 'Playas', Punta del Este (Uruguai), 2006-8, Martin Parr

Há mil formas de apreciar uma paisagem. Mas as melhores são aquelas onde empregamos toda a nossa aparelhagem sensorial. Mesmo quando empregamos apenas uma fracção do nosso potencial sensorial para experienciar a paisagem, como quando dormitamos na praia, debaixo do calor agreste do Sol, ao som do relato do Peñarol contra o Nacional de Montevideo, sentimos de algum modo o palpitar da paisagem, no murmúrio persistente e tranquilizador do mar ou no som de alguém que caminha pela areia, desenhando trilhos no solo, mesmo ao nosso lado.

Bulldozers em pleno acto de desflorestação ilegal, Paraguai, 2011, Survival International

Enquanto as boas consciências do Ocidente dormitam (e levitam por um mundo de fantasia) com o som de fundo da televisão, no planeta, como de costume, faz-se história. Milhares de episódios contraditórios e irreversíveis convivem na sincronia do presente, dando forma ao amanhã. Num dia só, faz-se muita história. No noticiário é que nem vê-la.

No Paraguai, a última tribo não amazónica da América do Sul ainda não contactada pela ‘nossa’ civilização (sim!, ainda existem tribos não contactadas no mundo) confronta-se a cada minuto que passa com o genocídio, a extinção. Neste caso, o processo de destruição sistemática e metódica de um grupo étnico pelo extermínio dos seus indivíduos realiza-se, antes de mais, pela destruição da sua paisagem.

Enquanto discutíamos Liga Europa e direitos humanos no café, a Survival International descobria uma nova desflorestação, agora de quatro mil hectares, na região cada vez mais desolada e inóspita habitada pelos Ayoreo-Totobiegosode. 

O resultado geográfico apocalíptico das bulldozers que abriram caminho aos prados que irão alimentar as ‘nossas’ bifanas e hambúrgueres pode ser visto aqui: http://www.survivalinternational.org/news/7187?utm_source=Survival+International&utm_campaign=9c782101d2-E_news_May_2011_5_5_2011&utm_medium=email .

Quando comerem o vosso bifinho pensem nisto.

Foto oficial de divulgação do resort L’and Vineyards, Montemor-o-Novo, 2011

Há em Portugal infinitos sintomas de estar em curso um rápido, diria mesmo fulgurante, processo de elitização da paisagem. Sem despoletar críticas nem acender discussões, num país sem tradição na reflexão sobre a paisagem, a proliferação de resorts turísticos por longas extensões da costa e por outras paisagens igualmente singulares traduz uma nova fase na história da luta de classes em Portugal, fase esta em que as classes dominantes decidiram apoderar-se de TODA a paisagem não-poluída, fértil, formosa, mercantilizável. Digo TODA.

Na ocupação das zonas mais privilegiadas do território por condomínios privados, detecta-se o mesmo fenómeno de apropriação, de posse da paisagem por uma elite. Vai longe o 25 de Abril: de um lado, a densidade habitacional da Reboleira, das Olaias, da Damaia; do outro, as áreas generosas dos condomínios, sabiamente integrados em paisagens manipuladas para agradar ao olho analfabeto do novo-rico.

Na concessão dos pontos mais vantajosos de acesso à costa marítima a marinas e portos de recreio, voltamos à mesma constatação: o país mais desigual da Europa Ocidental é-o também no acesso aos recursos mais privilegiados da sua paisagem.