Detalhe de fachada, Lisboa, 1995, Andrea Morgenstern

Sem que os portugueses sejam disso conscientes, Portugal é um país com pátina. Estou igualmente certo de que ninguém neste rectângulo estará de acordo de que a coisa mais bela que há em Portugal (ainda que na contemporaneidade essa coisa se vá tornando menos presente, pela intervenção do capital anónimo que unifica a paisagem para aí fazer singrar a especulação) é a pátina.

Um italiano renascentista deliraria com as tonalidades e texturas que as coisas e os lugares adquirem no nosso velho, e a espaços mágico,  Portogallo. Aqui, tudo adquire uma pátina que enriquece decisivamente a nossa experiência quotidiana das superfícies e das texturas. Até os prédios recém-inaugurados se enchem rapidamente de pátina. Parece que já nasceram com ela. Mas, mais bela é a pátina dos prédios de que já todos olvidaram o dia da sua inauguração.

Detalhe de fachada, Lisboa, 1995, Andrea Morgenstern

Não sei se é simplesmente dessa grande virtude nacional que é o desleixo, se dos maus acabamentos exteriores dos edifícios, se da humidade ou da chuva abundantes, sei apenas que as paisagens urbanas portuguesas estão salpicadas dessa coisa que neste post decidi chamar pátina.

Onde eu vivo, quer dizer, muito longe das paisagens urbanas, até as oliveiras se enchem de uma espessa película verde que, apesar de eu saber perfeitamente tratar-se de musgo, não sei distinguir do verdete que se forma sobre o bronze antigo, nem de qualquer outra pátina.

Mas o que tem assim de tão especial a pátina? A sua magia reside, para mim, no que ela contém de indefinido, de aventura, de jogo, de arte. E de tempo: a pátina assinala a temporalidade da matéria, do mundo; a transitoriedade das coisas, dos lugares, das paisagens. (E confesso aqui, dissimulado no interior deste parêntesis, que aprender a amar o que a transitoriedade – e em última instância a morte – possui de belo é um dos meus projectos de vida; e, para os que me conhecem, acrescento que é justamente por possuir tal projecto que me interessa tanto Debord: sua arte, pensamento e biografia.)

Jardim público, Évora, 2010, Andrea Morgenstern

A pátina é, por outro lado, uma metáfora daquilo que não controlamos, que não conhecemos e que, logo, nos ultrapassa.

A pátina não tem um autor – para além da história (natural). A pátina não tem uma cultura; ela é precisamente o que de não cultural  há na cultura material. A pátina não tem um momento histórico concreto; ela está de certo modo fora da história, apesar de ser uma expressão da mudança, da transformação. A pátina é o que fica nas coisas dessa ininterrupta e intrépida corrente (que o homem não pode nem sabe dominar) que é a passagem do tempo.

A pátina é de certa forma o que há de radicalmente espontâneo e livre  na cultura material. E é por isso que (num mundo onde a espontaneidade radical e a liberdade estão a priori banidas das relações sociais) ninguém ousa estudá-la e, menos ainda, compreendê-la.

Em Portugal, pelo menos, todos podemos desfrutá-la.