A história da paisagem não raras vezes se cruza com aquela da música, como bem exemplificam os jardins e a música barrocos ou os jardins e a música românticos. No caso do Barroco, encontramos o mesmo dinamismo, decoro e exuberância na Orangerie do Palácio de Versailles ou nas Variações Goldberg de Bach.

Sem possuir nada comparável aos jardins de Versailles, Detroit encontra a sua pérola no outro extremo das realizações humanas: a indústria automóvel. As sedes da Ford, da Chrysler e da General Motors seriam o seu único ex-libris caso a grande cidade do Michigan não tivesse também produzido o techno. De qualquer forma, o techno, graças a uma sonoridade minimal e robótica, não contribuiria senão para afirmar a sua fama de Motor City.

O techno é um dos géneros musicais mais inovadores que a música popular produziu nos últimos trinta anos – e possivelmente aquele que mais preconceitos foi capaz de gerar. A sua agressividade é indissociável da agressividade da paisagem de Detroit, a qual, em meados da década de 80 do séc. passado aquando da invenção do techno, resultava das seguintes particularidades sócio-económicas: colapso económico, despovoamento e abandono do centro da cidade, wasteland sem fim, ruína das classes médias, taxa de homicídios anormalmente elevada. Uma paisagem desoladora e violenta, e ainda por cima repleta de fábricas de automóveis, não poderia parir outra arte. O documentário conta o resto.