Relativamente à noção de lugar, o Marcos (um grande abraço para ti) deixou recentemente estas palavras na caixa de comentários citada, que me poderiam servir de inspiração para dar continuidade à série interminável de posts sobre a fenomenologia da paisagem:

“De certa maneira, todo o espaço só se converte num ‘lugar’ mediante essa ocupação integrada, como dizes. Num lugar, quer dizer, num micromundo único, vivo, com alma e sentido e distância e proximidade. Um ‘aqui’ que não existe em mais sítio nenhum, um ‘aqui’ que se funde no ‘agora’ que somos.” (o sublinhado é meu, as palavras do Marcos, a 21 de Maio)

Palco de experiências, vivências e ocorrências, o lugar deriva da humanização de uma parcela perfeitamente delimitada de espaço. Neste processo em que, ao projectarem sobre fragmentos do espaço a sua existência, as sociedades humanas criam lugares, esse espaço dota-se de atributos seus: personalidade, presença, identidade, afectividade.

Praça em Hospitalet, Barcelona, 2002, Joan Villaplana

O espaço é então aberto à experiência humana – à sensação e ao pensamento. É aberto ao confronto com o único animal que não se limita a adaptar-se a ele tal como a natureza lho apresenta, mas a transformá-lo, a (re)criá-lo, nele projectando os seus desejos, os seus sonhos, as suas utopias. Como relatava num ensaio que ficou célebre o historiador das religiões Mircea Eliade:

“O povoamento de uma nova região, desconhecida e inculta, equivale a um acto de criação (…): a transformação do caos em Cosmos pelo acto divino da Criação. (…) Os conquistadores espanhóis e portugueses apropriavam-se em nome de Jesus Cristo das ilhas e continentes que descobriam e conquistavam. A instalação da Cruz equivalia a uma ‘justificação’ e à ‘consagração’ da região, a um novo ‘nascimento’, repetindo assim o baptismo (acto da criação).”

Como mostra o exemplo de Eliade, o lugar nasce da transformação do caos que reina no espaço selvagem e inculto em campo semântico, ordenado por símbolos que operam como mediadores de ideologias e como agentes de socialização e de reprodução cultural. Ancorado em referências puramente simbólicas, o homem torna-se capaz de se integrar num meio hostil. É então para sentir-se em casa no mundo que ele cria os seus lugares. Por isso muitos desses lugares, “centros profundos da existência humana” na expressão do geógrafo Edward Relph, despertam-lhe sensações de pertença, de intimidade e de segurança. A organização simbólica do espaço pela criação de lugares é um dos meios que cada colectividade dispõe para constituir a sua identidade. Referências no espaço, os lugares, em torno dos quais inevitavelmente gravita a vida do homem mais arcaico ao mais moderno, são as âncoras que nos ligam ao mundo circundante, levando-nos a descobrir a sua singularidade social, emocional e simbólica, ao mesmo tempo em que nos revelam a nossa própria identidade.

Sintetizando, “o lugar”, como escrevia Lucy Lippard, “é temporal e espacial, pessoal e político. Demarcação estratificada, repleta de histórias humanas e de memórias, o lugar possui extensão assim como profundidade. Define-se por conexões, por aquilo que o circunda, que o formou, por aquilo que aí ocorreu, por aquilo que aí irá ocorrer.”

Ora, e falando agora do que a este post diz respeito, também a paisagem é temporal, pessoal e política; também ela se encontra repleta de histórias e memórias. Por isso, entendê-la é uma tarefa subjectiva por excelência. Obriga-nos a projectar memórias, histórias, conceitos, conhecimentos, ideologias, enfim, todo um volátil universo de fantasia, sobre as formas físicas, materiais, autênticas que nos envolvem.

Cemitério dos Prazeres, Lisboa, 2003, Andreia Almeida

Nesse sentido, todos temos uma palavra a dizer sobre a paisagem. E a paisagem estaria incompleta sem todas essas palavras que a nomeiam e descrevem. Sem (pelo menos uma parte d’) estas, aquela não existiria sequer; haveria apenas, em seu lugar, o espaço abstracto, indiferenciado, neutro (o espaço que um astronauta americano ou chinês encontrará amanhã na superfície de um outro planeta). Mas, a partir do momento em que as nossas palavras penetrassem esse espaço, ele perderia a sua neutralidade, a sua abstracção; e tornar-se-ia concreto, valorizado, significante; tornar-se-ia paisagem.

Paisagem é um conceito para não-matemáticos, para não-geómetras e, fundamentalmente, para não-economistas – e é uma das grandes calamidades do nosso tempo o facto de serem justamente os economistas a definir todos os seus contornos; os economistas substituem a paisagem pelo espaço do capital, dos investidores, da especulação, da mercadoria, enfim, por um espaço que não necessita de habitantes, de utentes, de mentalidades, de valores, de significados, de memórias, de passado; um espaço que já não é, por isso, exactamente uma paisagem. 

Paisagem é um conceito para psicólogos – outra das calamidades actuais reside no facto de os psicólogos ainda não terem percebido a importância da paisagem para entender o homem que julgam conhecer; para eles o homem vive fora das materialidades do mundo; para a esmagadora maioria de psicólogos, o ser-no-mundo de Heidegger é um conceito totalmente desconhecido. (Afinal, alguém já ouviu a palavra paisagem vinda da boca de algum psicólogo?)