Escultura em frente ao hotel Burj Al Arab, Dubai, 2007, Martin Parr

Modelo hoje dominante de organização da economia, implementado em toda a extensão do planeta com a bênção sagrada de jornalistas, opinion-makers e outros comunicadores igualmente eficientes, contratados explicitamente para o defender, o neo-liberalismo é responsável pelo idílio bucólico, harmónico e pastoril em que se tornou a paisagem do mundo que habitamos.

Este idílio, do qual TODOS nos honramos de ser co-responsáveis (ainda que uns se possam gabar de ser um nadinha mais do que outros), presenteia-nos diariamente com um imenso rol de factos, acontecimentos e circunstâncias de que se podem orgulhar os nossos políticos e, fundamentalmente, quem os elegeu:

– gentrificação de velhas capitais;

– recuperação dos padrões coloniais de segregação residencial;

– favelas sem esgotos, água canalizada ou latrinas, habitadas por um sexto da humanidade, periodicamente arrasadas para dar lugar a condomínios fechados ou simplesmente a auto-estradas que permitem a quem vive nas mansões campestres aceder rapidamente ao centro da sua metrópole;

– bairros dentro de muros, vigiados dia e noite por câmaras e guardas armados até aos dentes;

– magníficos monocultivos de perder de vista, ultra-intensivos, ultra-químicos, ultra-poluídos, ultra-tudo;

– ilhas privadas;

– novas cidades de luxo com os seus majestosos ‘lifestyle centers’, réplicas dos centros históricos das cidades antigas;

– etc.

Decidi começar esta nova série – onde cantarei, se calhar mais com o recurso a fotografias do que a palavras, os lugares de sonho dos Senhores que dominam a economia e a sociedade, isto é, o momento histórico presente – com um recanto muito especial do planeta, o sumptuoso e literalmente onírico Dubai. Recanto este responsável por muitas, e não apenas uma, paisagens de sonho. Dessas que não deixam indiferentes os Cavacos Silvas e os Silvios Berlusconis tão trivialmente abundantes nesta aldeola global em que se converteu o nosso astro, que alguém um dia se lembrou de apelidar com essa palavrinha tão singela e ao mesmo tempo sublime: terra.

Terra?

Marina, Dubai, 2006, Thomas Weinberger