Archives for the month of: Junho, 2011

Uma rua que seria igual a qualquer outra não fora a presença de um ciclista e a ausência de publicidade, Toulouse, 2009, La Depeche

 

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Moinhos de vento, Portugal, 2010, Luís Alves

Moinhos de vento, Espanha, 2009, Gustavo Catalán

Num país com pouca tradição em reflectir (sobre a paisagem), nem os inflamáveis eucaliptais, as preciosas obras de arte de Tomás Taveira, os imprescindíveis milhares de quilómetros de auto-estradas, os ultra-ecológicos olivais super-intensivos ou os admiráveis subúrbios de Lisboa e do Porto conseguiram suscitar alguma reflexão sobre a paisagem.

Sendo certo que tão pouco conseguirão fazê-lo os colossais moinhos de vento para produção de energia eólica, aos quais Portugal e Espanha aderiram massivamente, deixo aqui estas fotografias apenas para podermos apreciar o quão eles vêm beneficiar a harmonia e a estética das nossas cada dia mais aprazíveis e formosas paisagens.

Eis uma pergunta que sempre (me) coloquei.

Chaoyangmen Soho, obra de arte de Zaha Hadid Architects, Pequim, 2009

De onde virá essa aversão que, tornando-se tão explícita nas suas obras, os celebérrimos arquitectos contemporâneos denotam pela paisagem? Porque é que todas as suas obras (haverá excepções? uma que seja?) procuram aniquilar, neutralizar a presença perturbadora da paisagem? Será apenas como forma de destacar, sublinhar, exaltar o edifício-jóia de que são os singulares criadores? Será então como forma de se exaltarem a si próprios? Por outras palavras: estará a masturbação na essência da sua arte de construir? Ou ainda: serão as jóias da arquitectura contemporânea os órgâos genitais dos arquitectos?

'Casa da Música', obra de arte de Rem Koollhas, Porto, Philippe Ruault

A definição mais difundida de arquitecto contemporâneo, segundo a qual este é aquele “que veste de preto mas projecta em branco”, parece-me divertida mas demasiado exígua, se comparada com aquela outra que diz que arquitecto contemporâneo é aquele “que, mais do que qualquer outro, odeia a temporalidade, a história, a tensão, a violência, a pátina, mas também, o que é mais grave, os pobres utentes (marionetas?) dos seus imaculados edifícios-jóias”; enfim, trata-se daquele que estende o seu ódio, sem jamais escondê-lo, a tudo o que transporta o cheiro (des)agradável e excessivo da vida. Acho que foi justamente isso que, aos vinte anos, me levou a escrever um violento manifesto anti-arquitectura contemporânea – doze anos depois, não creio que faça falta alterar-lhe alguma vírgula.

Não é pois de espantar que os arquitectos contemporâneos odeiem também a paisagem, nomeadamente quando esta adquire a forma de um jardim. A sensualidade (que raramente procuram nas suas obras) é um dos seus alvos predilectos. Doravante, o mundo deverá prescindir dela. Eu, para não prescindir da sensualidade, optei por prescindir da arquitectura contemporânea.

Tribunal, obra de arte de Barbosa & Guimarães, Gouveia, 2011, Fernando Guerra

Casa particular, obra de arte de Bernardo Rodrigues, ilha de São Miguel (Açores), 2011, Iwan Baan

Caro leitor, o que foi feito da paisagem em todas estas fotos, em todos estes projectos, em todas estas obras?

A resposta é muito simples: a paisagem foi reduzida à sua função primordial de criar um cenário neutro, indiferente, vago, sem expressão própria, para os diversos edifícios-jóias, como se aquela fosse simplesmente uma sala vazia e estéril no interior de um museu de arte contemporânea onde se expõem preciosas obras de arte.

Precisamente: a arquitectura contemporânea converte as paisagens em salas de museus. Motivo mais do que suficiente para levar-nos a desconfiar dela.

Ninhos de cegonhas, à beira da estrada para Lavre, Montemor-o-Novo, 2011, Pedro Duarte

 

 

Banco algures à volta da muralha, Évora, 2011, Andrea Morgenstern

Serve para motivar-nos a caminhar e a não ficarmos sentados à espera de que alguma coisa aconteça.

Eu num banco à volta da muralha, Évora, 2011, Andrea Morgenstern

Serve para incorporar o inesperado, o imprevisível no nosso quotidiano.

Eu e o meu caderno num banco à volta da muralha, Évora, 2011, Andrea Morgenstern

Serve para intrometer-se nos nossos longos monólogos, que registamos em caderninhos, enquanto tomamos distância e perspectiva sobre um tema da nossa vida privada ou pública.

Eu e o meu caderno outra vez, Évora, 2011, Andrea Morgenstern

Serve para esconder de nós próprios a merda que escrevemos.

Toda a sociedade crê nos seus mitos. E a nossa, ao contrário do que muitos julgam, não é excepção. Bem pelo contrário.

No entanto, raros são os autores que se têm dedicado ao estudo das construções mentais, dos valores morais e dos estereótipos sociais que os indivíduos das sociedades contemporâneas (serão várias? ou será tudo a mesma?) idealizam e que são decisivos para os seu comportamentos.

Nesta série de posts, usarei a paisagem – que considero um mediador central nas relações sociais e nas comunicações dos humanos entre si – enquanto perspectiva para identificar os novos mitos que se estão a formar e reproduzir no nosso imaginário colectivo.

O segundo mito que tratarei nesta série é o estranho mas real mito da posse do mundo.

Este mito resultaria de mais uma invenção da minha criativa cabeça se não existisse uma página na Internet exclusivamente dedicada à venda de ilhas privadas, espalhadas por todo o mundo, na Croácia, na Grécia, no arquipélago das ilhas Fidji, nas Honduras, no Brasil, no Canadá, no Panamá, nas Bahamas, no Chile, em Portugal… em Portugal?! Não, ainda não. Quando questionado nesse sentido, o site informa: “Sorry, there are currently no islands available for sale in Portugal.” É pena…

Enquanto centenas de milhões de pessoas, que habitam as favelas das metrópoles do terceiro mundo, sonham persistentemente com uma latrina onde possam satisfazer as suas necessidades mais elementares, centenas de milionários visitam avidamente a inacreditável mas verdadeira (veja com os seus próprios olhos) página http://www.privateislandsonline.com/, em busca de uma ilha privada onde possam satisfazer uma das suas necessidades menos elementares: simular a posse do mundo, a propriedade sobre um cosmos perfeito, redondo, acabado.

No meio apenas da infinitude oceânica, e absolutamente fora do mundo e da história, ou seja, à margem da conflitualidade e das tensões que as animam, os compradores de ilhas apropriam-se de paisagens inteiras que começam em terra e acabam no horizonte marítimo. Ou seja, não acabam; são infinitas, porque, como todos sabemos desde criancinhas, o mar está pegado ao céu.

Os mais pobres deverão contentar-se com um iate para desfrutar da sensação única que resulta da experiência de dominar, sem concorrência, uma ampla paisagem, neste caso oceânica.

Esta vontade de sentir-se Senhor de todo um cosmos está longe de dizer respeito apenas a uma pequena elite, composta pelos indivíduos mais privilegiados pelo sistema económico. Na verdade, esta elite é invejada por muitos milhões de pobres, de operários, de mendigos, de pequeno-burgueses, de donas de casa, de imigrantes que são postos ao corrente dos seus costumes pela infalível imprensa cor de rosa.

Porque é alimentado por bombardeamentos constantes de publicidade cada vez mais sofisticada, que nos vende sempre a mesma ideia de que há um maravilhoso e imenso mundo exclusivamente concebido para girar em torno de nós para nos servir sempre melhor, este mito da posse do mundo toca em todos nós. Sim, caros leitores, ele toca, e em cheio, em todos vós.

Bem lá no fundo, ou se calhar nem tão fundo assim, todos gostaríeis de ter a vossa ilha privada, ou o vosso iate, ou o vosso apartamento na torre mais alta do Dubai. Para poderdes participar dessa experiência a que se dedicam todos os milionários do planeta: simular a posse do mundo.

… devo reconhecer o bem enorme que as radiações emitidas pelas antenas e pelos próprios aparelhos trouxeram à saúde da humanidade, bem como a maravilhosa possibilidade que os pequenos aparelhos nos dão para dizermos, quando vamos de viagem, o imprescindível “tou quase a chegar”, ou, quando andamos à procura de alguém em qualquer lado, o vital “onde é que estás?!”.

O telemóvel permite-nos localizar geograficamente o nosso próximo, acompanhando em directo os seus trilhos e aventuras do quotidiano e aumentando assim decisivamente a nossa felicidade interior.

Graças ao telemóvel, todos podemos ser, simultaneamente, polícias e alvos de policiamento: “onde é que andas? com quem estás? a que horas vens?”. O controlo é agora TOTAL, estendeu-se a toda a parte.

Por tudo isto, parece-me logicamente muito bem que espalhem antenas POR TODO O LADO, aumentando os campos electromagnéticos em redor dos nossos corpos e embelezando significativamente as nossas paisagens.

Antenas para os imprescindíveis telemóveis, Paris, 2000, Arnaud Olszak / Le Figaro

Da série 'Metropolis', Bruxelas, 2004-7, Joan Villaplana

Em Metropolis, Joan Villaplana regista magistralmente um dos momentos mais teatrais e inconscientemente encenados da nossa vida quotidiana: a espera no metropolitano – momento em que ensaiamos poses e exibimos indumentárias, mais ou menos adequadas à vida pública. 

Durante anos, Joan fotografou sem zoom aqueles que, na plataforma oposta à sua, solitariamente ou acompanhadamente, esperavam pela chegada do comboio.

Da série 'Metropolis', Paris, 2004-7, Joan Villaplana

A espera sobre um palco, com cenários sempre diversos, é o tema central de Metropolis.

Da série 'Metropolis', Paris, 2004-7, Joan Villaplana

Animando um sub-mundo, um universo subterrâneo conquistado pelo homem à geologia, as plataformas das estações são arquitecturas cuja beleza advém da iluminação que recebem, mas também da forma como irrompem abruptamente de um nada escuro, assustadoramente vazio. Este contraste entre o nada silencioso da escuridão e a luz humanizadora dos espaços, entre o espaço sem nome e o lugar, marca todas as fotografias desta maravilhosa colecção de encenações espontâneas.

Da série 'Metropolis', Madrid, 2004-7, Joan Villaplana

Ao contrário do que já li sobre este trabalho que J. Villaplana desenvolveu ao longo de vários anos em que viajou por diversas metrópoles da Europa ocidental, ele não documenta apenas a vida quotidiana de indivíduos atomizados, sem nenhum tipo de relação entre si.

Os actores desta peça de teatro, em que praticamente todos participamos, são também os agentes sociais que, em conjunto, dão uma  forma estruturada à sociedade. Na aparência, eles não querem saber uns dos outros; pouco lhes importa o que fazem os restantes transeuntes enquanto esperam por um meio de transporte que normalmente não tarda em chegar. 

Da série 'Metropolis', Marselha, 2004-7, Joan Villaplana

Mas isso é apenas a aparência: na prática são raros os que permanecem insensíveis às convenções e normas de comportamento em vigor, às linguagens operativas no dia-a-dia, enfim, à semiótica do mundo contemporâneo.

Da série 'Metropolis', Paris, 2004-7, Joan Villaplana

Raros são aqueles que circulam pelo espaço público, pela pólis, sem sentir que têm sobre si colocados os olhos de um público que determina parcialmente as suas acções.

Da série 'Metropolis', Bruxelas, 2004-7, Joan Villaplana

Alcachofras da horta servidas ao jantar, Alentejo, 2009, Andrea Morgenstern

As alcachofras são, por estas alturas, se conseguirmos esquecer que o feijão verde está agora no auge, a cereja em cima do bolo cá da horta.

Ao contrário dos catalães que as comem pequeninas e inteiras, cá em casa preferimos comê-las como os franceses, ou seja, apenas depois delas alcançarem o seu maior tamanho. Acompanhamos com dois molhos muito diferentes: um à base de vinagre e tomilho; o outro de maionese e alho. O vinho tinto ou branco é obrigatório a acompanhar.