Caro João,

O tom e o conteúdo do seu comentário relativamente à omnipresença do capital – leia-se, da finança, da bolsa, da especulação, da grande indústria – nas paisagens mundiais deixam transparecer algum desconhecimento sobre um par de temas actuais muitíssimo relevantes.

Plantação intensiva de soja, Brasil, 2011, Revista Exame

a) O capital não olha a meios (nem à singularidade das paisagens) para reproduzir-se. A especulação – especialização a que se tem dedicado Passos Coelho na sua carreira profissional como referi no post anterior – não busca no território senão ‘oportunidades’ para multiplicar o capital ‘investido’.

b) O efeito da expansão planetária do capital (essencialmente ocidental mas hoje também japonês, chinês, coreano e indiano), que uma dúzia de corporations levaram até aos confins do chamado ‘Terceiro Mundo’, foi, em primeiríssimo lugar, o de rebentar com a pequena agricultura que era escoada para os mercados regionais e dava rendimento e alimento à parcela mais pobre da população mundial. Subitamente desempregada, essa parcela teve por isso de migrar para as favelas das grandes metrópoles (Lagos, a maior de todas elas, mas também Daca, Mumbai, Cairo, Rio, Lima e a lista é infelizmente muito mais extensa), passando de pobre a miserável: sem acesso a água, comida ou latrinas. O sangue que jorra das favelas parece não interessar ao João. E ainda menos aos entertainers que fazem o ‘jornalismo’ dos Públicos, dos Expressos, das RTPs e dos DNs que se calhar (ou talvez não) o João consome.

Bulldozers abrindo caminho à exploração coreana de metade das terras aráveis do Madagáscar, ilha de Madagáscar, 2010, foko_Madagascar

c) O capital apenas está interessado em produzir para os ‘mercados’. Os excluídos dos mercados deverão fazer hortas ilegais e roubar nas grandes superfícies, sob pena de morrerem à fome. Caro João, o capital não alimenta 7 biliões de bocas! Alimenta sim a barriga dos 7 monstros que dominam o agro-business.

d) Finalmente, o capital(ismo) está-se nas tintas para o apego que o João ou eu possamos ter por determinadas paisagens e pelo seu papel activo na constituição da(s) cultura(s).