Toda a sociedade crê nos seus mitos. E a nossa, ao contrário do que muitos julgam, não é excepção. Bem pelo contrário.

No entanto, raros são os autores que se têm dedicado ao estudo das construções mentais, dos valores morais e dos estereótipos sociais que os indivíduos das sociedades contemporâneas (serão várias? ou será tudo a mesma?) idealizam e que são decisivos para os seu comportamentos.

Nesta série de posts, usarei a paisagem – que considero um mediador central nas relações sociais e nas comunicações dos humanos entre si – enquanto perspectiva para identificar os novos mitos que se estão a formar e reproduzir no nosso imaginário colectivo.

O segundo mito que tratarei nesta série é o estranho mas real mito da posse do mundo.

Este mito resultaria de mais uma invenção da minha criativa cabeça se não existisse uma página na Internet exclusivamente dedicada à venda de ilhas privadas, espalhadas por todo o mundo, na Croácia, na Grécia, no arquipélago das ilhas Fidji, nas Honduras, no Brasil, no Canadá, no Panamá, nas Bahamas, no Chile, em Portugal… em Portugal?! Não, ainda não. Quando questionado nesse sentido, o site informa: “Sorry, there are currently no islands available for sale in Portugal.” É pena…

Enquanto centenas de milhões de pessoas, que habitam as favelas das metrópoles do terceiro mundo, sonham persistentemente com uma latrina onde possam satisfazer as suas necessidades mais elementares, centenas de milionários visitam avidamente a inacreditável mas verdadeira (veja com os seus próprios olhos) página http://www.privateislandsonline.com/, em busca de uma ilha privada onde possam satisfazer uma das suas necessidades menos elementares: simular a posse do mundo, a propriedade sobre um cosmos perfeito, redondo, acabado.

No meio apenas da infinitude oceânica, e absolutamente fora do mundo e da história, ou seja, à margem da conflitualidade e das tensões que as animam, os compradores de ilhas apropriam-se de paisagens inteiras que começam em terra e acabam no horizonte marítimo. Ou seja, não acabam; são infinitas, porque, como todos sabemos desde criancinhas, o mar está pegado ao céu.

Os mais pobres deverão contentar-se com um iate para desfrutar da sensação única que resulta da experiência de dominar, sem concorrência, uma ampla paisagem, neste caso oceânica.

Esta vontade de sentir-se Senhor de todo um cosmos está longe de dizer respeito apenas a uma pequena elite, composta pelos indivíduos mais privilegiados pelo sistema económico. Na verdade, esta elite é invejada por muitos milhões de pobres, de operários, de mendigos, de pequeno-burgueses, de donas de casa, de imigrantes que são postos ao corrente dos seus costumes pela infalível imprensa cor de rosa.

Porque é alimentado por bombardeamentos constantes de publicidade cada vez mais sofisticada, que nos vende sempre a mesma ideia de que há um maravilhoso e imenso mundo exclusivamente concebido para girar em torno de nós para nos servir sempre melhor, este mito da posse do mundo toca em todos nós. Sim, caros leitores, ele toca, e em cheio, em todos vós.

Bem lá no fundo, ou se calhar nem tão fundo assim, todos gostaríeis de ter a vossa ilha privada, ou o vosso iate, ou o vosso apartamento na torre mais alta do Dubai. Para poderdes participar dessa experiência a que se dedicam todos os milionários do planeta: simular a posse do mundo.