Eis uma pergunta que sempre (me) coloquei.

Chaoyangmen Soho, obra de arte de Zaha Hadid Architects, Pequim, 2009

De onde virá essa aversão que, tornando-se tão explícita nas suas obras, os celebérrimos arquitectos contemporâneos denotam pela paisagem? Porque é que todas as suas obras (haverá excepções? uma que seja?) procuram aniquilar, neutralizar a presença perturbadora da paisagem? Será apenas como forma de destacar, sublinhar, exaltar o edifício-jóia de que são os singulares criadores? Será então como forma de se exaltarem a si próprios? Por outras palavras: estará a masturbação na essência da sua arte de construir? Ou ainda: serão as jóias da arquitectura contemporânea os órgâos genitais dos arquitectos?

'Casa da Música', obra de arte de Rem Koollhas, Porto, Philippe Ruault

A definição mais difundida de arquitecto contemporâneo, segundo a qual este é aquele “que veste de preto mas projecta em branco”, parece-me divertida mas demasiado exígua, se comparada com aquela outra que diz que arquitecto contemporâneo é aquele “que, mais do que qualquer outro, odeia a temporalidade, a história, a tensão, a violência, a pátina, mas também, o que é mais grave, os pobres utentes (marionetas?) dos seus imaculados edifícios-jóias”; enfim, trata-se daquele que estende o seu ódio, sem jamais escondê-lo, a tudo o que transporta o cheiro (des)agradável e excessivo da vida. Acho que foi justamente isso que, aos vinte anos, me levou a escrever um violento manifesto anti-arquitectura contemporânea – doze anos depois, não creio que faça falta alterar-lhe alguma vírgula.

Não é pois de espantar que os arquitectos contemporâneos odeiem também a paisagem, nomeadamente quando esta adquire a forma de um jardim. A sensualidade (que raramente procuram nas suas obras) é um dos seus alvos predilectos. Doravante, o mundo deverá prescindir dela. Eu, para não prescindir da sensualidade, optei por prescindir da arquitectura contemporânea.

Tribunal, obra de arte de Barbosa & Guimarães, Gouveia, 2011, Fernando Guerra

Casa particular, obra de arte de Bernardo Rodrigues, ilha de São Miguel (Açores), 2011, Iwan Baan

Caro leitor, o que foi feito da paisagem em todas estas fotos, em todos estes projectos, em todas estas obras?

A resposta é muito simples: a paisagem foi reduzida à sua função primordial de criar um cenário neutro, indiferente, vago, sem expressão própria, para os diversos edifícios-jóias, como se aquela fosse simplesmente uma sala vazia e estéril no interior de um museu de arte contemporânea onde se expõem preciosas obras de arte.

Precisamente: a arquitectura contemporânea converte as paisagens em salas de museus. Motivo mais do que suficiente para levar-nos a desconfiar dela.

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