Vista sobre Mumbai, Índia, 2006, Vinny

A complexidade do caos do momento histórico em que vivemos é o ponto de partida assumido deste blog, dos temas que nele abordo. É também o ponto de partida das críticas que João Amaro Correia faz à sua prosa e ao seu pensamento. Um mesmo ponto de partida; duas trajectórias diferentes.

Enquanto que eu parto dele para procurar construir-lhe uma análise crítica, reveladora das consequências para as paisagens e fundamentalmente para os homens da tal complexidade do caos, João Amaro Correia parte dele (tanto quanto dá a entender nas suas críticas aos meus textos; mas será esta minha interpretação abusiva?; admito que sim…) para justificar a impossibilidade de se poder (e a imaturidade de se desejar) transformar, subverter o existente. Mas o que é, hoje, o existente? (João, esta é a única questão, nesta discussão, que realmente me importa.)

O existente são as centenas (milhares?) de metrópoles com as suas insalubres e miseráveis favelas (visitei algumas – no Recife, em Manaus, em Lisboa, em Buenos Aires, em La Paz; o João, tão interessado na complexidade do caos, certamente também já fez o mesmo) hoje habitadas por quase um sexto da população mundial que, tal como o João, também deve bendizer e dirigir louvores à (teoricamente tão interessante, porque capaz de animar tão ilustres discussões) complexidade do caos.

O existente são as paisagens unidimensionais, porque abertas ao capital anónimo, ao investimento, à lógica de tudo mobilizar em função do lucro, à irracional razão económica, indiferentes aos humanos, à natureza, à vida.

O existente são as milhares de tribos indígenas que, da Índia ao Peru, da Sibéria ao Botswana, do Canadá a Angola, a vontade de crescimento económico ilimitado expõe cruelmente ao espólio, à expropriação, ao massacre e ao genocídio.

O existente são as milhões de pessoas que morrem anualmente, vítimas das chamadas doenças tropicais mas também do facto da pesquisa farmacêutica se orientar para o lucro e não para a necessidade, para o capital e não para a vida (é mais rentável inventar um novo creme anti-rugas, capaz de alimentar o mito da eterna juventude, do que um eficaz tratamento para o dengue).

O existente não se esgota naturalmente nestas linhas, que um historiador do século XXIII poderia citar se quisesse apresentar em traços gerais o momento histórico actual.

Caro João, a complexidade do caos que tanto lhe parece interessar, enquanto tema teórico para acompanhar um bom Porto ou um bom cachimbo, não é afinal incriticável, incensurável, inacusável. Ela é, isso sim, inabitável por uma porção gigantesca da população mundial.

O caos é sempre belo para quem o observa de fora.