Sobreposição de monumentos, Barreiro, 2011, Rui Marques

Alguns habitantes (na verdade estou a pensar numa habitante muito especial) da esbelta e airosa cidade do Barreiro (haverá outra cidade tão bela?) ficaram enfurecidos quando foram recentemente surpreendidos por uma insólita sobreposição de monumentos alusivos a dois momentos da nossa história contemporânea.

Num primeiro plano, o memorial aos fuzileiros que há quatro décadas praticaram a sua arte por terras de África remete-nos necessariamente para o fascismo de Salazar, responsável, entre tantas outras proezas, pela guerra colonial que deixou traumatizada uma geração inteira de portugueses e várias gerações de africanos.

Num segundo plano, um letreiro gigantesco impõe na paisagem da pólis uma famosa cadeia de hipermercados que vende tudo aquilo de que precisamos para sermos felizes e saudáveis, assinalando ao mesmo tempo a presença de um monumento de uma outra natureza, que remete para um outro tipo de fascismo. Ao invés do fascismo salazarista, esta outra forma de fascismo nada impõe. O fascismo de mercado apenas sugere. Mas fá-lo sem jamais nos permitir ganhar distância sobre a torrente imparável de informações habilmente sugeridas, enquanto vai apagando todas as áreas de silêncio onde o seu ruído ainda não se faz ecoar esmagadoramente. Neste mundo, o silêncio é remetido para as margens (onde vivem os inadaptados, os excluídos e os loucos).

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