Julia Roberts em anúncio para a L'Oréal, 2011

O alegado irrealismo desta imagem conduziu à proibição em Inglaterra de mais um perverso anúncio a um produto do líder mundial da indústria da cosmética, a francesa L’Oréal. A notícia não seria uma aberração absoluta se todas as agências de publicidade que operam à face da Terra não fabricassem, diariamente, em cada um dos trabalhos que lhe são encomendados, exactamente o mesmo género de discurso imagético, assente sobre a deturpação caricatural da realidade.

Toda a publicidade que circula pelos mass media, digo TODA, fala aos espectadores de uma realidade que pura e simplesmente não existe, ao ponto de ser tão real aquilo que o santo padre diz todos os dias na missa quanto o mundo construído pelos publicitários.

Apesar de não fazer o consenso, esta ideia é bem velhinha. Por exemplo, em 1971, Louis Quesnel notava que «a publicidade evoca um Mundo ideal, purificado de toda a tragédia, sem países subdesenvolvidos, sem bomba nuclear, sem explosão demográfica e sem guerras. Um Mundo inocente, cheio de sorrisos e luzes, optimista e paradisíaco.» Um Mundo feliz onde, como também escrevia Vicente Romano, «as desgraças, as catástrofes, as grandes fomes e guerras, os sofrimentos e mortes acontecem sempre a outros e noutros lugares».

A publicidade, a da L’Oréal e a outra, é o reino paradisíaco da irrealidade. Geralmente, quem odeia profundamente a vida, a existência, a realidade adora loucamente a publicidade. Porque uma é a negação da outra. São os pólos opostos no interior da geografia por onde se movem os nossos corpos semi-escravizados pelos Senhores da economia.