Amplas vistas sobre a paisagem em Falmer, Brighton (Inglaterra), 2011, José Reis

‘Paisagem’ é um conceito fértil porque, quando o manuseamos, deixa-nos quase sempre a reflectir sobre noções que doutra forma (talvez) não abordaríamos. Efectivamente, por trás da ‘paisagem’, em que se detêm, talvez mais do que quaisquer outros, paisagistas, antropólogos, geógrafos e arqueólogos (e que lástima que – não falando aqui dos arquitectos contemporâneos – por exemplo os psicólogos, com as devidas excepções, não tenham ainda percebido a importância do estudo da paisagem para o conhecimento da psique humana), há uma diversidade de noções/conceitos/temáticas de que apenas nos aproximamos quando tentamos entender o que é afinal a paisagem.

Uma dessas noções é a de ‘pausa‘.

Amplas vistas sobre uma paisagem suíça, Berna, 2005(?), Joan Villaplana

Da óptica de quem viaja num TGV ou numa auto-estrada, dificilmente a paisagem se manifesta enquanto entidade à parte, horizonte material estimulante para os cinco sentidos, para a construção da memória, da identidade, do imaginário colectivo, da fantasia, da religião, da subjectividade. Porque não há pausa.

E a pausa está na raiz da ideia de paisagem. O movimento perpétuo dispensa paisagens; o ‘espaço’ (uniforme, abstracto, homogéneo, unívoco) é-lhe suficiente. Caracterizada pela pluralidade e pela ambiguidade, cada paisagem corresponde a uma construção cultural que varia conforme os olhos, os usos e as crenças de quem a frequenta, existindo por conseguinte múltiplas formas de a ler, usar e representar.

É a pausa, suspensão de todo o movimento, que torna possíveis esses usos, leituras e representações. Uma época ávida de espectáculos contínuos dá-se por conseguinte mal com as pausas, os silêncios, as suspensões, sem os quais não poderão existir paisagens.

Nem lugares, mas isso é para outra conversa.