‘Lixo’ é um conceito recente.

Os meus vizinhos nonagenários contam-me que, ainda há poucas décadas, não acumulavam grandes restos das coisas consumidas. O que sobrava, geralmente matéria orgânica, voltava para a terra, de onde aliás tinha vindo.

Também no porto de Manaus, capital do estado brasileiro da Amazónia, onde vivem muitas pessoas dentro de barquinhos rudimentares (onde chegam a ter galinhas e a fazer hortas), o que sobra vai parar ao Amazonas. Os restos jamais se acumulam, nunca chegando pois a formar uma ‘lixeira’. Há dez anos, os meus olhos pasmados viram restos de comida, de cerâmica e de roupa a voar com uma grande naturalidade para o rio.

‘Lixo’ não é pois um conceito operativo para descrevermos todas as épocas nem todas as culturas. Mas é um conceito central para descrevermos o mundo em que vivemos e o modelo de sociedade e de economia dominantes.

Produzir lixo é hoje, nos meios mais prósperos do Ocidente, um sinal distintivo que assinala o prestígio, a dignidade, o privilégio de um indivíduo, o seu grau de sucesso na hierarquia social. Quantas toneladas de lixo produzirá anualmente o Cristiano Ronaldo? Em quantos quilos de plástico virá embalada a comida que ele semanalmente consome? E a roupa? Quantos quilómetros quadrados de tecido passado de moda deitará esse escravo do espectáculo fora num único ano? Lixo é aqui sinónimo de luxo.

Não menos interessante do que o lixo luxuoso de CR7 para conhecermos o tempo em que vivemos, seus hábitos e suas práticas, é o lixo que uma equipa da Universidade de Washington tem andado a estudar: aquele encontrado na fronteira mexicana com os EUA, gerado por milhões de ‘latinos’ em busca do sonho americano.

Bota encontrada na fronteira mexicana com os EUA, 2011, Jeff Corwin

Chamado Undocumented Migration Project, este projecto de investigação etnográfica converte mochilas, calçado, garrafas de água e muitos outros itens de cultura material abandonados na paisagem em documentos para revelar algo da biografia e da identidade dos corpos anónimos que cruzam a fronteira. O lixo, acumulado no território percorrido por milhões de ‘migrantes’, pode ser alvo de uma série de questionários que o convertem num precioso recurso para recuperarmos informações sobre vidas submetidas a torturas várias que todos os média, reféns do espectáculo, propositadamente ignoram.

A história do nosso tempo poderia hoje definir-se como “tudo aquilo que ocorre fora dos média”; e o Undocumented Migration Project é precisamente um projecto sobre história do nosso tempo.