Qualquer comentador político minimamente credível e responsável, daqueles que costumam aparecer na tv em horário nobre com a camisa muito bem passada a ferro (terão sido as suas mãos a passá-la a ferro?), sabe perfeitamente que não existem ‘classes’, que eventualmente nunca existiram; e que entre os diferentes estratos da sociedade não existem conflitos, atritos nem tensões: a paz e a harmonia reinam entre todos nós – mesmo que estejamos na sociedade da Europa ocidental onde a distribuição de rendimentos é mais desigual.

Os recentes motins atenienses, parisienses e londrinos são reveladores de que o neo-liberalismo reinante é portador de harmonia social. E de que as ‘classes’, obviamente, não existem. Aliás, já nem os intelectuais se lembram de falar nelas. Estão definitivamente ‘fora de moda’.

No entanto, e apesar de todas estas evidências, ainda existem mulheres que, habitando aldeias pobres ou bairros periféricos, se deslocam diariamente dezenas de quilómetros para ir limpar as retretes de quem nunca soube o que é limpar a urina (e não só) do interior do rebordo de uma retrete. “Mas o que terá isto a ver com classes?”, questionará o leitor que se sente pobre e maltratado pela sociedade, mas que jamais encostou o nariz ao interior da retrete de lá de casa; porque nunca teve de limpá-la: existe sempre alguém abaixo de si na hierarquia que irá executar tão repugnante tarefa.

Poderíamos assim dividir toda a sociedade (lusitana) em pelo menos duas classes principais: (a) aqueles que não precisam de limpar a retrete onde mijam e cagam diariamente e (b) aqueles que, além de terem de enfiar a mão e o nariz na sua, enfiam-nos também na retrete onde mija e caga o patrão; enfim, aqueles que se podem subtrair ao universo de tarefas repugnantes e aqueles que ficariam totalmente de fora do sistema económico não fora o facto de estarem disponíveis para realizar precisamente essas tarefas. E eis que chegamos à notícia do título deste texto. Por intermédio de umas considerações (repugnantes e) muito breves sobre essa coisa que deixou de existir (nos média) mas que afinal está por toda a parte (na realidade) chamada… ‘classes sociais’.

Em Lagos existe um bairro habitado há várias décadas por centenas de pessoas que é comprometedor para os negócios da classe dominante. Este bairro exemplifica perfeitamente como o território português está hoje no centro de uma luta entre classes com interesses antagónicos. De um lado, estão os que, apoiados pelos poderes políticos, manipulam o território para especular e ‘fazer negócios’; olham para o território em busca de metros quadrados  especuláveis. Do outro, estão os que, ignorados pelos poderes políticos, usam o território para satisfazer as necessidades do quotidiano.

O bairro da Meia Praia é apenas um caso de estudo entre tantos outros que também poderiam ilustrar esta luta de classes. Aqui, as classes dominantes encontraram o seu porta-voz no presidente da Câmara de Lagos, um personagem muito típico de um mundo reaganiano (que infelizmente é o nosso) e que dá pelo nome Júlio José Monteiro Barroso. O bairro que o sr. Barroso se propõe erradicar, sendo habitado maioritariamente por pescadores, não é compatível com os luxuosos hotéis previstos para a zona. Em palavras do sr. Barroso, “A Meia Praia está consagrada no novo plano de urbanização como zona turística de excelência”. Assim sendo, os pescadores terão de encontrar uma nova zona para se estabelecerem, desde que não seja “de excelência”, caso contrário lá voltarão a ter de ser realojados.

A excelência, como deixa entender o sr. Barroso, não é para todos. Não o é certamente para os pescadores, que não merecem viver num lugar bonito, aprazível, com boas vistas. NÃO! Isso não é coisa de pescadores. JAMAIS! Seria uma afronta à malta dos Audi, das piscinas, dos golfs, dos spas, das Pousadas.

E agora o leitor que me diga se há ou não há ‘classes’ neste mundo de merda!