Magnífico relvado, Qta. da Bacalhoa, Azeitão, 2011, Pedro Duarte

O facto de não ser tema que os escribas do espectáculo, vulgarmente designados por jornalistas, tenham decidido converter em matéria mediática apenas vem confirmar e reforçar a sua importância, a urgência de se reflectir sobre os seus efeitos e as suas motivações: os outrora fascinantes jardins da Quinta da Bacalhoa, adquiridos há uma década pelo bilionário Joe Berardo foram desfigurados, pervertidos, adulterados. Numa palavra, falsificados.

Nada de estranho, portanto. Numa época onde, da cerveja ao bife (como diria Debord), passando pelos pastéis de bacalhau, o pão, as bolas de berlim, os vinhos, as alfaces, mas também pelos filósofos, artistas  e lugares, tudo se falsifica, porque não também os jardins e as chamadas paisagens culturais? [Enfim, porque não torná-los reconhecíveis e aceitáveis ao (mau) gosto contemporâneo?]

Aspecto geral da vinha que veio substituir o pomar de citrinos, Qta. da Bacalhoa, Azeitão, 2011, Pedro Duarte

A Qta. da Bacalhoa exemplifica na perfeição o espírito falsificador que sobrevoa e domina a nossa época, pervagando-a de lés a lés. É sabido que, ao contrário da velha aristocracia, o novo-riquismo não sabe reconhecer ao tacto, ao paladar, à vista ou ao cheiro uma qualquer transcendência na matéria que nos rodeia (e que, por lhe atribuirmos um valor e um significado singulares, vamos convertendo em cultura), seja a beleza perfumada de uma flor, o sabor intenso de um tomate verdadeiro, a voz divina de Cecilia Bartoli ou o fascínio de uma madeira antiga. O novo-riquismo prefere trocar estas sensações por experiências hedonistas em spas, em geladarias Haagen Dazs ou nos areais das Maldivas.

Vistas sobre a quinta, Qta. da Bacalhoa, Azeitão, 2011, Pedro Duarte

Mas o que veio afinal de contas falsificar a intervenção nos jardins da Bacalhoa ordenada pelo comendador coleccionador?

Datada essencialmente do período renascentista, e inspirada no grande movimento cultural italiano, a arquitectura dos jardins desta quinta única conferiu-lhes um ambiente que não deixa de ser muito próprio dos jardins portugueses. São disso bem demonstrativos o seu carácter de intimidade; a relativa quebra na rigidez geométrica e na unidade de composição entre jardins e casa (ou seja, a quase ausência dos desenvolvimentos axiais típicos do renascimento italiano ou do barroco francês); o estímulo constante à deambulação, mas também à pausa e à fruição sensorial; a relativa compartimentação do espaço ajardinado; a dispersão de bancos ao longo de caminhos; a frescura aquática do grande tanque associada à sombra da casa de fresco que lhe está contígua; a presença geométrica e colorida de azulejos; o perfume (da flor), a cor (da fruta) e a constância (da folha) do pomar de citrinos; os poderosos contrastes luz/sombra. Estes e outros aspectos concorrem para que os jardins da Bacalhoa, pela sua antiguidade, se possam considerar de certa forma fundacionais na constituição daquilo que alguns chamaram o jardim português.

Tanque e casa de fresco, Qta. da Bacalhoa, Azeitão, 2011, Pedro Duarte

Ora, foi precisamente este interesse para a história da cultura, da paisagem e da identidade portuguesas que as várias intervenções, imagino que sem o consentimento das autoridades públicas tutelares, vieram afectar, ao transformarem a topografia, ao trocarem o antigo laranjal por uma vinha, ao colocarem um tapete de relva, ao construírem novas vedações, ao afectarem o antigo sistema de rega por gravidade de tradição islâmica…

Aspecto do relvado, Qta. da Bacalhoa, Azeitão, 2011, Pedro Duarte

A Qta. da Bacalhoa converteu-se assim no Château do Joe. Um château vinícola à la Bordeaux, mas onde não falta um relvado muito british. Fica a pergunta no ar: para quando a plantação de uma alameda de palmeiras tunisinas?

Enfim, a chegada triunfal a Azeitão (e não só) do sr. Berardo veio revelar em que delicadas mãos estão guardados alguns dos tesouros culturais e artísticos deste e doutros países. Fica uma certeza: a concentração do capital numas quantas mãos é terrível; a da cultura também.