Archives for the month of: Outubro, 2011

Inserido numa pequena série de 4 filmes sobre “Arquivos, memórias e explorações documentais”, “A embaixada” foi o único filme da sua série que me convenceu – os restantes abusaram de um pseudo-experimentalismo que nem há meio século passaria por vanguardista. Nele, um único plano mostra tudo: uma mão, preta, actual, que percorre as páginas de um antigo álbum de fotos, tiradas por brancos, de distintas paisagens da Guiné Bissau sob domínio português. A mão percorre lentamente todo o álbum, mas apenas se detém numa percentagem relativamente pequena de imagens. A mão preta escolhe, selecciona apenas algumas das imagens fabricadas pelo (e para o) olho branco. A mão que mostra o passado à câmara de Filipa César mostra apenas uma fracção desse passado.

Imagem do filme "A embaixada", 2011, de Filipa César

Trata-se de uma bela metáfora de como cada memória constrói o seu passado, destacando as imagens e as paisagens que melhor o definem e fundamentam.

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O primeiro Pelotăo de Caçadores da Companhia 1496 durante a GUERRA COLONIAL, Guiné Bissau, 1961-1973, Diamantino Monteiro

Contraditório é o nome do pior programa da Antena 1 e, para quem quiser comprová-lo, vai para o ar todas as Sextas depois das 19 horas. O ultra-conservador Carlos Magno, o monárquico Luís Delgado e a pseudo-progressista Ana Sá Lopes debatem temas da actualidade sobre os quais se põem de acordo em 99,99% das vezes: o nome do programa não passa portanto de uma provocação aos ouvintes, porque de contraditório não há ali ABSOLUTAMENTE NADA.

No programa de hoje, que ouvi estoicamente durante uns 20 minutos, sem no entanto conseguir conter os arrepios, o Carlos Magno defendeu abertamente que o nosso país deveria usar o português como estratégia para penetrar (economicamente, culturalmente) nas geografias do hemisfério sul onde se fala a língua de Camões, enquanto a Ana Sá Lopes e o Luís Delgado faziam o silêncio habitual dos que concordam. A ideia de que a nação mais antiga da Europa tem tudo a ganhar com as ex-colónias não é nova. Porém, o pessoal da foto acima sabe muito bem o preço que, com toda a justiça, mais tarde ou mais cedo há a pagar por ela: ser expulso de lá ao balázio e à porrada.

O território à nossa volta (as ‘paisagens contemporâneas’) está repleto de sinais da história e da pré-história, que nos anunciam outros mundos, épocas e sociedades. Entender esse território, por onde nos movemos regularmente, depende pois do nosso conhecimento do passado mais ou menos remoto.

É esse conhecimento (o qual se vai lentamente construindo, questionando e reformulando, num processo muito lento, nem sempre cumulativo) que, ao dar-nos uma imagem e uma escala da história humana, nos permite ganhar uma perspectiva a partir da qual podemos olhar, pensar, valorizar e criticar o próprio presente. Daí que sem história dificilmente poderá haver uma leitura crítica do presente. Sem história, dificilmente poderão sequer existir ângulos para perspectivar o presente. Ao permitir que a nossa memória represente de formas fidedignas (e não delirantes, falsas, mentirosas) o passado, ela é pois fundamental.

Capa do Vol. 2 do manual do 5º ano de História e Geografia de Portugal da Texto Editores, 2011

O manual de História (que também compreende as matérias de Geografia) do 5º ano dos meus filhos, escrito por Ana Oliveira, Francisco Cantanhede e Marília Gago, e revisto, entre outros, pelo Dr. Jorge de Alarcão, professor catedrático da Universidade de Coimbra e autoridade inquestionável da arqueologia portuguesa, contém uma quantidade espantosa de informações delirantes relativas ao capítulo sobre pré-história (a verdade é que ainda não li o manual mais para a frente, por isso não sei se o ritmo de disparates se mantém ao longo de todo o livro). Entre estas, contam-se as seguintes, capazes de deixar qualquer pré-historiador com os cabelos em pé:

Insinua-se que a agricultura e a pastorícia foram inventadas como meras reacções adaptativas a alterações climáticas.

Faltam dados que confirmem esta velhíssima tese positivista (e recorde-se que o dr. Alarcão tem sido o grande defensor das causas positivistas na arqueologia portuguesa) , que valida o velhíssimo pressuposto esquemático, redutor e simplista de que a cultura não passa de um sistema de meios “que servem para adaptar indivíduos e grupos aos seus ambientes” (Lewis Binford, 1968). E cada vez surgem mais dados que revelam como essa tese é exageradamente redutora e irrealista.

Diz-se que as comunidades agro-pastoris passaram a adorar a chuva.

Puro delírio! Porquê a chuva e não o planeta Vénus ou o cometa Halley?

Diz-se que os primeiros aldeamentos camponeses “eram cercados para as comunidades se defenderem melhor dos (…) grupos inimigos”.

Nada mais falso: os aldeamentos fortificados não surgiram no início do período em que o Homem iniciou de forma consistente a domesticação de plantas e animais (o chamado Neolítico), mas justamente no final desse período, com a generalização de um clima de guerra pelo sudoeste da Península Ibérica.

Representa-se um indivíduo de uma comunidade caçadora-recolectora a pintar, na parede de uma caverna, duas figuras humanas.

Gravíssimo: a arte parietal do Paleolítico (período em que as estratégias económicas assentavam sobre a caça/pesca e a recolecção) caracteriza-se pela quase absoluta ausência da representação da figura humana, ao contrário da arte das comunidades neolíticas, precisamente centrada em torno da representação desta figura.

Afirma-se, sobre a arte rupestre do Paleolítico, que as pinturas, “geralmente, representam cenas de caça”.

É a mentira mais inaceitável de todas: em nenhuma parte do mundo a não ser no mundo da banda desenhada e da fantasia, do qual este manual parece querer fazer parte, se afirmou tal coisa. É o maior delírio de todo o capítulo. Inqualificável! (Cenas de caça?!)

Será que o Dr. Jorge de Alarcão, que terá sido pago para fazer a revisão científica da obra, não se debruçou uns dez minutinhos sobre as aberrações narradas no capítulo sobre pré-história? Atendendo à dimensão dos disparates transmitidos nesse capítulo, não é de todo improvável.

Ou será o notável catedrático de Coimbra uma autoridade internacionalmente reconhecida em arqueologia clássica (do imperialismo romano) e uma nulidade total e completa em arqueologia pré-histórica? Se for este o caso, deveria tê-lo comunicado, humildemente, aos autores do manual, para que estes entregassem a outros a revisão científica da matéria em questão.

Na verdade, pouco me importa a razão da falta de responsabilidade por parte daquela eminência académica. Importa-me apenas que o passado mais remoto transmitido aos meus filhos e a todos aqueles que também foram obrigados pela escola a adquirir o manual em apreço (que, por sinal, não foi nada barato) seja uma ficção completa, sem um horizonte de verdade com o qual deveria estar fortemente comprometido.

Já todos sabíamos que o compromisso com a verdade há muito que desaparecera de inúmeras esferas da vida social (mediática – onde aliás nunca esteve –, mercantil, jornalística, política, etc.). Ficamos a saber agora que nem na escola esse compromisso é levado a sério.

Quanto aos meus colegas pré-historiadores, os debates em que se têm envolvido a fundo, e que têm contribuído para pintar com novas formas e cores o quadro do nosso passado mais remoto (Paleolítico e Neolítico), não encontram tradução sequer num manual escolar de História. Para que servirão, então?

Jacques le Goff escreveu um dia que a Revolução Francesa foi, em certa medida, uma revolução da memória: de facto com a Revolução apareceram de imediato os Arquivos nacionais (tornando públicos os documentos da memória nacional) e começou também a era dos museus públicos e nacionais.

Que a nossa revolução em gestação seja também uma revolução da memória; da memória de todo o nosso passado, que nos permita compreender criticamente o presente.

Capa da publicação "Pontos nos ii" (nº 139), 1888, Rafael Bordalo Pinheiro

As sempre actuais e interessantes edições Letra Livre editaram este ano uma obra que estava praticamente esgotada e, por isso, ameaçada de permanecer ignorada pela minha geração. Poderá ser agora adquirida aqui.

Quem tiver curiosidade e interesse pela vida/obra do grande geógrafo naturalista e humanista não deverá também deixar de assistir ao documentário “Orlando Ribeiro, itinerâncias de um geógrafo”.

Devastação em território urbano, Líbia, 2011, KeystoneUSA-Zuma/Rex Features

A contemporaneidade não é só uma época cujas paisagens ficarão marcadas pelos edifícios-jóias de Gehry ou Koolhaas.

A contemporaneidade vai muito além do espectáculo e do show off,  sendo igualmente marcada por inúmeros conflitos que vão deixando feridas abertas nas suas paisagens.

O documentário abaixo, Death in Gaza (2004), é magnífico justamente por revelar, com a transparência que está apenas ao alcance dos bons repórteres, como se vive (e como se morre) no interior de uma dessas feridas – talvez a mais monstruosa de todas elas, o gueto de Gaza.

(Nota: o próprio realizador do filme, o jornalista James Miller, foi assassinado com uma bala no pescoço pelo exército israelita durante as filmagens, acontecimento que também é narrado no documentário. Death in Gaza é um grande documento sobre a vida e a morte numa paisagem atormentada, dilacerada, despedaçada, como tantas outras por esse mundo fora.)

O encerramento de 622 quilómetros de linha ferroviária que servia comboios regionais um pouco por todo o país parece que vai mesmo ocorrer. Cabe aqui notar que as linhas ferroviárias do Leste, do Vouga, do Oeste, do Alentejo (entre Beja e Funcheira), de Cáceres, do Tua, do Tâmega, do Corgo, que serão encerradas, servem, de acordo com dados da CP, 830 mil passageiros por ano. E que, destes, a esmagadora maioria pertence a classes sociais que vivem com menores rendimentos.

A rede ferroviária de passageiros nacional irá assim ficar  reduzida a 60% do que já foi em 1944!!!!! É espantoso não é? É isto que se chama um governo com estratégia para o futuro. Com visão estratégica, como se costuma dizer nos média. (O problema é somente o tipo de futuro para onde esta visão alucinada conduz.)

Pois é, caríssimos, comboio, só se for o de alta velocidade; para ricos, claro; para quem habita os grandes centros urbanos, onde estão concentradas as elites (que beneficiam das brutais injustiças do sistema económico em curso) com as suas clínicas privadas, os seus colégios privados, as suas universidades privadas, os seus ginásios privados, os seus spas privados… É isto que faz o governo neoliberal da coisa pública: criar infraestruturas públicas, repito, PÚBLICAS (pagas por todos), para servir o modo de vida das elites e dos que estão bem na vida.

E o povo, pá?!… QUE SE FODA, naturalmente. E, fundamentalmente, que continue caladinho a pagar essas infraestruturas (auto-estradas, marinas e aeroportos, para dar 3 exemplos), enquanto as escolas, os hospitais e os centros de saúde se degradam a uma velocidade vertiginosa.

Foi você que disse revolução?

O exemplo está à distância de um clic aqui.

Poderíamos fundamentar uma resposta à questão colocada de milhares de formas. Eis apenas uma entre tantas outras (atenção, o documentário que se segue é absolutamente GENIAL):

“O documentário Sagrada Terra Especulada narra um período de lutas contra o Setor Noroeste, bairro de alto luxo que a especulação imobiliária do Distrito Federal tenta construir a qualquer custo.

Tendo como enfoque a resistência realizada na Reserva Indígena Santuário dos Pajés, o documentário traça a ação da mídia, políticos, empresários, especuladores e burocratas: todos a serviço do lucro e da segregação. Do outro lado, apresenta a ação de movimentos populares em uma incansável e também vitoriosa luta.”

(texto oficial de apresentação do documentário)

… por jovens cansados, fartos de ser iludidos pela grande encenação democrática que, em vez de proteger a rés-pública (a coisa pública), procura abertamente aniquilá-la, destruí-la, extingui-la. ABERTAMENTE: pelo que já só não vê quem não quer.

Foi lindo ver (e dar a ver aos meus filhotes que estavam tão eufóricos como eu) ontem, 15 de Outubro, o povo tomar a escadaria do poder. Um prenúncio para algo grandioso?