Aberração é um decalque do francês aberration, que por sua vez deriva do verbo latino aberrare que, no meu dicionário de Latim, significa “andar longe de, afastar-se, desviar-se do caminho, extraviar-se”.

Se esta leitura for correcta, uma intervenção aberrante na paisagem não é em si mesma . Ela apenas anda longe daquilo que é usual fazer-se, anda pois extraviada, afastada das normas, do senso comum. Peço por isso aos meus prezados leitores abertura de espírito para avaliar cada uma das aberrações que por aqui irei trazendo.

Aspecto da escada na entrada poente do Parque Verde do Mondego, Coimbra, Fernando Guerra

Começo com um caso aparentemente irrelevante mas que considero fascinante. Na verdade, toda a obra, da qual o caso que elegi é apenas uma pequena parcela, é aberrante o suficiente para poder receber esta minha homenagem. Mas a escadaria colossal, superiormente retratada na fotografia, merece um louvor especial; é sem dúvida a cereja em cima do bolo de toda uma obra milionária, que ainda devemos andar a pagar, juntamente com tantas outras, aos nossos amigos credores alemães.

Acontece que nasci em Coimbra. O que equivale a dizer que conheço aquela zona. Como era e como ficou, depois da intervenção. E, talvez por isso, ou apenas por não apreciar a brutalidade na arquitectura, não consigo perceber o porquê daquela escada – nem do resto da obra, é certo. O que até certo ponto me fascina. Será certamente daí o facto de a considerar uma aberração: pelo nonsense absoluto que é capaz de despertar.

O seu fascínio não é portanto estético. Definitivamente.

Aspecto da mesma escada, Coimbra, Fernando Guerra

O seu fascínio provém, julgo eu, da forma monumental, altiva, exageradamente desequilibrada, forçada, ou mesmo chocante e brutal como estabelece a comunicação entre o relvado e a passerelle branca, neutra, logo contemporânea, que procura aparecer leve e pura, mas cuja brutalidade e absoluta ausência de sensualidade (assim como a incapacidade de lidar com a transcendência, com a magia, com a história desse ‘novo’ lugar de memória que é o Mosteiro de Sta. Clara-a-Velha dado a conhecer pelas escavações arqueológicas) são igualmente notórias.

Aspecto da passerelle do mesmo Parque, Coimbra, Fernando Guerra

Qualquer escada sugere em quem a observa movimento, anunciando o trânsito de corpos movendo-se entre espaços contíguos.

Menos esta que, por ser tão neutra e asséptica, e fundamentalmente tão desnecessariamente colossal (o que se percebe muitíssimo melhor no local do que através das fotos), é incapaz de remeter para a ideia de corpos (humanos), de calor (biológico), de movimento (de qualquer tipo). Apetece apenas fugir dela – tal como da passerelle, aliás, que remete mais para a imagem de uma auto-estrada sem pausas nem fim, do que de um caminho pedonal com motivos (sensoriais, simbólicos, intelectuais) para estimular-nos ou chamar-nos ao passeio, à deambulação (que é, afinal de contas, uma característica central do jardim português – sim, estamos nessa coisa pouco civilizada que dá pelo nome Portugal – e que os criadores portugueses de paisagens contemporâneas tão pouco ou nada consideram, tratando-nos como finlandeses, belgas, holandeses, ou qualquer outro povo civilizado).

Outro aspecto da passerelle, Coimbra, Fernando Guerra