Interior de conhecida loja de móveis e decoração, Hospitalet (Barcelona), 2009, Joan Villaplana

Estação de metro Concorde, foto da colecção ‘Metropolis’, Paris, 2004-7, Joan Villaplana

A contemporaneidade gostaria de ser neutra.

A paisagem contemporânea é branca.

Eis duas evidências que julgo importantes para entendermos o mundo lá fora.

Casa da Música, Porto, 2004(?), Rem Koolhaas

Mas há mais.

O branco não tem pátria.

A contemporaneidade tão pouco – ainda que a sua origem seja mais norte-americana do que albanesa ou cabo-verdiana.

Ambos fazem parte deste mundo global, sem passado nem identidade, que apenas quer saber do presente; do aqui e do agora. Um mundo sem transcendências que cultiva as imanências, tal como se percebe das mensagens que os publicitários criam para levar-nos a aderir ao maravilhoso mundo da mercadoria: “Viva o momento!” (Vodafone).

O culto à higiene, à pureza e à castidade traduz-se em materialidades brancas, que encontramos não apenas em cozinhas, casas de banho e escolas, mas também em tudo o resto. Até já surgiu a moda do branco imaculado nos automóveis de novos-ricos que se querem fazer passar de modernos, de contemporâneos.

‘Branco’ é sucesso, Lugar e data desconhecidos, A. Kromushin

Entre outras coisas, o branco simboliza a pureza e a inocência. Talvez por isso, e também como forma de aliviar a sua má-consciência, o novo-riquismo cosmopolita (dos privilegiados por este sistema económico iníquo e perverso) recorra ao branco. Porque, ao contrário do preto (das viaturas de governantes e industriais, do traje de arquitectos, da maioria de gadgets), o branco purifica, purga.

A contemporaneidade é a época da pseudo-neutralidade, política, cultural, estética. Da indiferença extrema perante qualquer tomada de posição relativamente à pólis, ao quotidiano, à colectividade, à arte, ao espaço, à paisagem.

Trata-se de uma época dominada pela primeira classe social da história, a classe média, que (a não ser que lhe toquem no património ou na conta bancária) jamais toma partido; e que, aos que tomam partido (na defesa do ambiente, da cultura, da verdade, da rés-pública ou simplesmente do futuro), denomina de radicais e, por vezes, de terroristas. Talvez por isso eu seja um perigoso extremista: por tomar partido.

É por acreditar no mito da neutralidade, que a burguesia que domina os negócios e os média (e a pequena burguesia que procura avidamente arranjar emprego num desses negócios e entretenimento em todos esses média) trata a revolução como o grande mal que nunca pode chegar. À violência da revolução que nunca chegará, contrapõe o pacifismo da pseudo-neutralidade reinante. Por isso, a violência dos oprimidos (em Londres, em Paris ou em Atenas) surge nos média como um crime bárbaro e inqualificável, não tanto por abalar profundamente o marasmo e a apatia em que se vive, como por atacar um mito fundacional do momento em que vivemos. Um mito que, por ser colectivamente partilhado, sustenta e justifica o presente.

O branco asséptico que vemos chegar ao nosso quotidiano, à sua cultura material, transporta este mito da neutralidade, o qual procura inscrever no nosso imaginário colectivo. Talvez por isso seja tão branca a face imaculada que a contemporaneidade gosta de mostrar de si própria.