Calçada em praça, Alter do Chão, 2011, Pedro Duarte

Quando, uma década atrás, vivi em Barcelona, sofri com a falta de algo que só muito tarde vim a descobrir ser a luminosidade do chão pisado. Saía do prédio em Eixample, onde vivia, e a escuridão pesada do que pisava pesava dentro de mim. Uns anos depois, em Berlim, iria compensar essa mesma falta com a amplitude dos passeios, mais largos do que em qualquer outra grande cidade por mim conhecida.

Calçada no Chiado, Lisboa, 2011, Andrea Morgenstern

O chão que pisamos é mais importante do que imaginamos (principalmente quando habitamos uma cidade – sim, porque no campo resta-nos sempre a amplitude da paisagem aberta ao horizonte e ao céu para nos inspirarmos/estimularmos/perdermos/encontrarmos). Trata-se de uma materialidade omnipresente no quotidiano que, por muito que a minha geração tenha decretado que caminhar pelas ruas é ‘merda de marginais, cotas e excluídos’, opera como estímulo sensorial, inconscientemente (e, talvez por isso, eficazmente) apreendido.

A matéria à nossa volta tem um papel mais activo do que aparenta (talvez por desempenhá-lo em silêncio) no nosso estado mental, psicológico.

Calçada no Chiado, Lisboa, 2011, Andrea Morgenstern

Investigações recentes tendem a concluir que o nosso cérebro não se encontra biologicamente pré-programado, na medida em que possui uma plasticidade resultante da nossa interacção com o meio material que habitamos. Como entendia há quase um século Martin Heidegger, o homem define-se como um ser-no-mundo, moldado pelo meio que habita e que num certo sentido o absorve. Fora deste meio, ele não é capaz de sentir, de conhecer, de inventar, de representar, de agir. O próprio fundador da sociologia e do positivismo (corrente tão pouco dada a psicologismos), Auguste Comte, acreditava que era da imagem de

Calçada no Chiado, Lisboa, 2011, Andrea Morgenstern

permanência e de estabilidade que nos oferecem os objectos materiais à nossa volta que resulta o nosso equilíbrio mental.

Calçada no Chiado, Lisboa, 2011, Andrea Morgenstern

Ou seja, as coisas lá fora, com que lidamos diariamente, influem na psique mais do que julgamos. E as superfícies onde poisamos regularmente os nossos pés não poderiam ser excepção.

Calçada com pés, Alter do Chão, 2011, Andrea Morgenstern

Ora, em Portugal, essas superfícies são muitas vezes de uma elegância singular. Refiro-me naturalmente às calçadas de calcário e basalto. Além de boas difusoras da luz de que, talvez à excepção da cidade do Porto, todas as paisagens portuguesas são tributárias e reféns, as calçadas traduzem algo que está, creio, na essência da nossa cultura: a riqueza em simetrias, repetições e rendilhados – que encontramos também nas guitarradas de Carlos Paredes (mas também em todo o fado), nos azulejos geométricos de milhares de fachadas urbanas ou até no ‘toque de bola’ da selecção, tão exageradamente vistoso e tão desesperadamente pouco objectivo.

Calçada em rua, Alter do Chão, 2011, Pedro Duarte