O território à nossa volta (as ‘paisagens contemporâneas’) está repleto de sinais da história e da pré-história, que nos anunciam outros mundos, épocas e sociedades. Entender esse território, por onde nos movemos regularmente, depende pois do nosso conhecimento do passado mais ou menos remoto.

É esse conhecimento (o qual se vai lentamente construindo, questionando e reformulando, num processo muito lento, nem sempre cumulativo) que, ao dar-nos uma imagem e uma escala da história humana, nos permite ganhar uma perspectiva a partir da qual podemos olhar, pensar, valorizar e criticar o próprio presente. Daí que sem história dificilmente poderá haver uma leitura crítica do presente. Sem história, dificilmente poderão sequer existir ângulos para perspectivar o presente. Ao permitir que a nossa memória represente de formas fidedignas (e não delirantes, falsas, mentirosas) o passado, ela é pois fundamental.

Capa do Vol. 2 do manual do 5º ano de História e Geografia de Portugal da Texto Editores, 2011

O manual de História (que também compreende as matérias de Geografia) do 5º ano dos meus filhos, escrito por Ana Oliveira, Francisco Cantanhede e Marília Gago, e revisto, entre outros, pelo Dr. Jorge de Alarcão, professor catedrático da Universidade de Coimbra e autoridade inquestionável da arqueologia portuguesa, contém uma quantidade espantosa de informações delirantes relativas ao capítulo sobre pré-história (a verdade é que ainda não li o manual mais para a frente, por isso não sei se o ritmo de disparates se mantém ao longo de todo o livro). Entre estas, contam-se as seguintes, capazes de deixar qualquer pré-historiador com os cabelos em pé:

Insinua-se que a agricultura e a pastorícia foram inventadas como meras reacções adaptativas a alterações climáticas.

Faltam dados que confirmem esta velhíssima tese positivista (e recorde-se que o dr. Alarcão tem sido o grande defensor das causas positivistas na arqueologia portuguesa) , que valida o velhíssimo pressuposto esquemático, redutor e simplista de que a cultura não passa de um sistema de meios “que servem para adaptar indivíduos e grupos aos seus ambientes” (Lewis Binford, 1968). E cada vez surgem mais dados que revelam como essa tese é exageradamente redutora e irrealista.

Diz-se que as comunidades agro-pastoris passaram a adorar a chuva.

Puro delírio! Porquê a chuva e não o planeta Vénus ou o cometa Halley?

Diz-se que os primeiros aldeamentos camponeses “eram cercados para as comunidades se defenderem melhor dos (…) grupos inimigos”.

Nada mais falso: os aldeamentos fortificados não surgiram no início do período em que o Homem iniciou de forma consistente a domesticação de plantas e animais (o chamado Neolítico), mas justamente no final desse período, com a generalização de um clima de guerra pelo sudoeste da Península Ibérica.

Representa-se um indivíduo de uma comunidade caçadora-recolectora a pintar, na parede de uma caverna, duas figuras humanas.

Gravíssimo: a arte parietal do Paleolítico (período em que as estratégias económicas assentavam sobre a caça/pesca e a recolecção) caracteriza-se pela quase absoluta ausência da representação da figura humana, ao contrário da arte das comunidades neolíticas, precisamente centrada em torno da representação desta figura.

Afirma-se, sobre a arte rupestre do Paleolítico, que as pinturas, “geralmente, representam cenas de caça”.

É a mentira mais inaceitável de todas: em nenhuma parte do mundo a não ser no mundo da banda desenhada e da fantasia, do qual este manual parece querer fazer parte, se afirmou tal coisa. É o maior delírio de todo o capítulo. Inqualificável! (Cenas de caça?!)

Será que o Dr. Jorge de Alarcão, que terá sido pago para fazer a revisão científica da obra, não se debruçou uns dez minutinhos sobre as aberrações narradas no capítulo sobre pré-história? Atendendo à dimensão dos disparates transmitidos nesse capítulo, não é de todo improvável.

Ou será o notável catedrático de Coimbra uma autoridade internacionalmente reconhecida em arqueologia clássica (do imperialismo romano) e uma nulidade total e completa em arqueologia pré-histórica? Se for este o caso, deveria tê-lo comunicado, humildemente, aos autores do manual, para que estes entregassem a outros a revisão científica da matéria em questão.

Na verdade, pouco me importa a razão da falta de responsabilidade por parte daquela eminência académica. Importa-me apenas que o passado mais remoto transmitido aos meus filhos e a todos aqueles que também foram obrigados pela escola a adquirir o manual em apreço (que, por sinal, não foi nada barato) seja uma ficção completa, sem um horizonte de verdade com o qual deveria estar fortemente comprometido.

Já todos sabíamos que o compromisso com a verdade há muito que desaparecera de inúmeras esferas da vida social (mediática – onde aliás nunca esteve –, mercantil, jornalística, política, etc.). Ficamos a saber agora que nem na escola esse compromisso é levado a sério.

Quanto aos meus colegas pré-historiadores, os debates em que se têm envolvido a fundo, e que têm contribuído para pintar com novas formas e cores o quadro do nosso passado mais remoto (Paleolítico e Neolítico), não encontram tradução sequer num manual escolar de História. Para que servirão, então?

Jacques le Goff escreveu um dia que a Revolução Francesa foi, em certa medida, uma revolução da memória: de facto com a Revolução apareceram de imediato os Arquivos nacionais (tornando públicos os documentos da memória nacional) e começou também a era dos museus públicos e nacionais.

Que a nossa revolução em gestação seja também uma revolução da memória; da memória de todo o nosso passado, que nos permita compreender criticamente o presente.