O conceito de paisagem só pôde surgir quando o Homem caçador-recolector do paleolítico deixou de viver no seio da natureza e, separando-se física e simbolicamente desta, criou as arquitecturas (que não são menos símbolos do que abrigos) onde passou a habitar.

A paisagem nasceu assim simultaneamente com a arquitectura. Foram paridas ao mesmo tempo.

A arquitectura doméstica, nascida do espaço concebido de raiz pelo Homem que (graças à presença do fogo – é de notar que lar e lareira possuem a mesma raiz) passava a estar no centro do quotidiano, era o dentro e a paisagem o fora.

Igreja de S. Francisco, Évora, 2011, Andrea Morgenstern

Enquanto vivia diluído no seu meio material envolvente, que era a sua única casa, o Homem e a natureza eram um só. Foi quando se separou desta, pela invenção da arquitectura (que deverá coincidir cronologicamente com aquela da arte, da religião e do mito), que passou a ter uma perspectiva para olhar e valorizar o mundo em redor. E foi graças a essa nova perspectiva que passou a existir uma nova exterioridade, a paisagem.

Igreja de S. Francisco, Évora, 2011, Andrea Morgenstern

A paisagem começa, pois, onde acaba o dentro da arquitectura. Ela é, por definição, um fora, do qual, por causa do seu valor simbólico, depende fortemente toda a vida social, cultural, política e religiosa do Homem – isto porque a paisagem nunca é neutra.