Ontem, no pior programa da rádio pública, o Contraditório da Antena 1, claro, os 3 comentadores de serviço (agora sem o Carlos Magno, substituído pelo Raul Vaz) procuravam entender a manifestação em frente ao Parlamento do final de tarde de 24 de Novembro (quando as centrais sindicais já tinham abandonado o largo, rumando à comodidade doméstica do sofá ou ao shopping que o Natal está à porta). Mas nenhum destes guardiões mediáticos do capitalismo quis logicamente entender o verdadeiro e único sentido histórico da manifestação: a expressão pública de um ódio de morte ao capitalismo; a procura de caminhos novos em que tudo será diferente. Desta manifestação surgiu uma novidade essencial de que nenhum média poderá naturalmente falar: emergiu uma massa de população indignada, pronta a organizar-se para enfrentar o capitalismo.

Como no Maio de 68, o que estes jovens manifestantes querem é tão somente afirmar que há vida, há sociedade para lá do capitalismo e da sua lógica de reduzir toda uma população à condição de meros recursos humanos, atomizados, ao dispor de industriais e investidores que, quando deles precisam para re-produzir lucros e desigualdade, a eles recorrem e, quando querem manter lucros e desigualdade em tempos de crise, rapidamente deles abdicam.

Meus caros, a crítica ao sistema está-se a radicalizar. Quer dizer, está a ir à raiz do problema (é este aliás o significado de radicalizar: descer à raiz). É uma evidência. Ao ponto dos sindicalistas amigos do Miguel Relvas da CGTP/UGT se demarcarem imediatamente dela, colocando-se rapidamente ao lado do ministro e da polícia, como se constatou após a manifestação de quinta-feira passada.

Neste xadrez da história, todos ocupam os seus lugares. Desmantelado o 25 de Abril, compete-nos a nós lutar pela revolução. Os bons tempos estão de volta: 1968 é agora; 1871 também. Só depende de nós.

(Hoje como quase sempre, a revolução dispensa os partidos. Ela apenas não dispensa que tomemos partido.)