Archives for the month of: Dezembro, 2011

Porque com ela termina a epopeia do melhor blog de todos os tempos: kim jong il looking at things.

Anúncios

Eis uma questão que (me) adoro colocar. E faço-o frequentemente – as questões mais infantis são para mim as mais interessantes; são também aquelas para as quais mais dificilmente encontro respostas convincentes.

Em Portugal, o jardim está em vias de extinção. Já pouca gente (e nenhum arquitecto contemporâneo… ah, como eu te adoro) sabe apreciar o potencial de um jardim. Ou sequer reconhecê-lo: entender que num jardim existe um potencial, uma potência, que pode ser transformada, convertida em qualquer coisa; será um poder fazer? um poder sentir? um poder evocar? um poder SER?

A essência do jardim é antes de mais ficcional. Qualquer jardim, e não apenas o jardim japonês, é por natureza uma ficção, uma simulação, uma ilusão. Um bom paisagista é por isso sempre um ilusionista cujos ilusionismos, quer dizer, cujos jardins, deverão ser suficientemente convincentes para fazer-nos crer, inconscientemente (mas atenção porque as coisas mais importantes e eficazes que ocorrem no nosso cérebro ocorrem sem que delas tenhamos consciência), estarmos perante o azul fresco do mar, do lago ou do rio, o turbilhão de fantasias que qualquer floresta suscita, a sensualidade quase erótica das dunas varridas pelo vento, a amplitude ao mesmo tempo serena e inquietante da planície, o sopro melodioso, tantas vezes orquestral do vento…

O que quer dizer que um jardim é essencialmente um símbolo (tal como o é igualmente a arte, segundo a interessante teoria de Nelson Goodman). Ou seja, ele anuncia sempre qualquer coisa que não está totalmente presente (poderá por vezes estar apenas em parte), evoca uma ausência, mesmo que raramente, ou mesmo nunca, sejamos disso conscientes (não me canso deste ponto: a importância do nosso inconsciente na forma como apreendemos todo o meio em redor).

Mas o que evoca afinal o jardim?

Na minha opinião, o jardim evoca muito simplesmente a VIDA. Evoca a terra, a água, a pedra, a madeira, a vegetação, o céu, o vento, o fogo (através do Sol), o calor, o frio, o seco, o molhado, a luz, a sombra, a cor, etc., etc., ou seja, todos os elementos vitais; a vida.

O jardim é o palco e o cenário onde, no plano da cultura, se representa e sintetiza a história da vida. O que o jardim simula culturalmente é a paisagem e a passagem da vida.

E daí estar em vias de extinção. No nosso tempo, a esfera da vida é cada vez mais monopólio dos industriais e das suas mercadorias. Já repararam que toda a propaganda actual ao consumo se concentra sobre o viver? A mensagem das principais agências de publicidade resume o feitiço das mercadorias à sua capacidade para dar-nos, para lá do poder, a vida.

Fora do reino da mercadoria, o comum dos mortais sente hoje uma certa relutância em reconhecer a esfera da vida, em identificá-la. E é justamente por isso que deixou de saber interpretar ou apreciar algo tão elementar e simples como um jardim.

Os jardins antigos estão hoje, em Portugal, abandonados (e são por isso tão belos: ruínas em construção). Ou então recuperados (falsificados) para agradar ao olho, mas não aos restantes sentidos, de uma burguesia que sabe entregar-se de corpo e alma aos disfarces e às aparências, mas não àquilo que contém no seu interior uma violência primordial: a violência da vida.

Descubra, à distância de um clic, como olhava o regime salazarista para a obra de Hitler.

Eis o interessante mito, revelado através de três casos históricos singulares:

1: A mitificação do camponês

2: A agricultura familiar no fascismo

3: A agricultura familiar no nazismo

O anzol (33), Abril de 2011

Todas as medidas políticas que hoje se tomam na União Europeia têm como única meta satisfazer os investidores, “acalmar os mercados”, agradar ao capital anónimo que circula e se multiplica sem parar, sem nos dar um segundo de descanso. É a sagrada ‘reacção dos investidores’ (basta ouvir uma qualquer declaração do Cavaco, do Barroso, do Passos, da Merkel…) que determina toda a política e, portanto, toda a vida da pólis.

O anzol (39), Novembro de 2011

Foi para isto que vocês votaram?

Hoje, depois das duas grandes catástrofes nucleares (na URSS e no Japão) noticiadas pelos média, já todos sabemos que, dos vários negócios do capitalismo, a energia nuclear (tal como o negócio da indústria automóvel, da indústria farmacêutica, da agro-indústria, dos O.G.M. ou dos pesticidas) não está no grupo dos mais seguros, a curto, médio ou longo prazo. É sabido que, em capitalismo, rentabilidade (para uma minoria) e segurança (para a maioria) raramente vão de par. E a irracionalidade da lógica capitalista já demonstrou não ser apenas capaz de multiplicar cancros, obesidade, de provocar o aquecimento do planeta, o aumento brutal de catástrofes ambientais, de favorecer um boom imparável de favelas (habitadas por cerca de um sexto da humanidade) ou de nada fazer para conter a disseminação das doenças tropicais no hemisfério Sul.

Esta noite, activistas sem armas da Greenpeace penetraram pacificamente no interior de uma central nuclear francesa, não muito distante de Paris, demonstrando a facilidade que há em chegar ao coração de uma central nuclear. Tratou-se simplesmente de mais uma forma de demonstrar a irrealidade do mito da ‘segurança nuclear’.

(Se algum dia o terrorismo tivesse sido uma ameaça efectiva para o Ocidente, não restariam provavelmente hoje em todo o mundo Ocidental mais do que as antipáticas baratas das pensões parisienses, as pombas incansáveis e asquerosas do Rossio e as gigantes ratazanas de Nova Iorque – a radioactividade ter-se-ia encarregado de eliminar tudo o resto.)

“Os trabalhos e interesses comuns levam ao agrupamento dos homens em aldeias compactas, arruadas em torno da igreja da freguesia e do largo onde os vizinhos se juntam e convivem, como a eira, o forno, o lagar, o moinho do povo; à roda, ficam os campos obrigatoriamente abertos e sujeitos ao afolhamento estabelecido, os pastos do rebanho colectivo – de ovelhas, de porcos, de bois, consoante os lugares; os largos espaços baldios, de fruição comunitária. As casas da aldeia, que abrigam uma forte vida colectiva, erguem-se, em manchas carregadas e distantes, dos campos despovoados. Retalhada no interior dos limites da comunidade, a terra permaneceu muito tempo em regime de exploração colectiva, como uma vasta unidade agrária a que a aldeia serve de centro.”

Orlando Ribeiro, 1945 (Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico)

Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico / Orlando Ribeiro: Coimbra Editora, 1945, Exemplar da Biblioteca Nacional

Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico / Orlando Ribeiro: Coimbra Editora, 1945, Exemplar da Biblioteca Nacional