Eis uma questão que (me) adoro colocar. E faço-o frequentemente – as questões mais infantis são para mim as mais interessantes; são também aquelas para as quais mais dificilmente encontro respostas convincentes.

Em Portugal, o jardim está em vias de extinção. Já pouca gente (e nenhum arquitecto contemporâneo… ah, como eu te adoro) sabe apreciar o potencial de um jardim. Ou sequer reconhecê-lo: entender que num jardim existe um potencial, uma potência, que pode ser transformada, convertida em qualquer coisa; será um poder fazer? um poder sentir? um poder evocar? um poder SER?

A essência do jardim é antes de mais ficcional. Qualquer jardim, e não apenas o jardim japonês, é por natureza uma ficção, uma simulação, uma ilusão. Um bom paisagista é por isso sempre um ilusionista cujos ilusionismos, quer dizer, cujos jardins, deverão ser suficientemente convincentes para fazer-nos crer, inconscientemente (mas atenção porque as coisas mais importantes e eficazes que ocorrem no nosso cérebro ocorrem sem que delas tenhamos consciência), estarmos perante o azul fresco do mar, do lago ou do rio, o turbilhão de fantasias que qualquer floresta suscita, a sensualidade quase erótica das dunas varridas pelo vento, a amplitude ao mesmo tempo serena e inquietante da planície, o sopro melodioso, tantas vezes orquestral do vento…

O que quer dizer que um jardim é essencialmente um símbolo (tal como o é igualmente a arte, segundo a interessante teoria de Nelson Goodman). Ou seja, ele anuncia sempre qualquer coisa que não está totalmente presente (poderá por vezes estar apenas em parte), evoca uma ausência, mesmo que raramente, ou mesmo nunca, sejamos disso conscientes (não me canso deste ponto: a importância do nosso inconsciente na forma como apreendemos todo o meio em redor).

Mas o que evoca afinal o jardim?

Na minha opinião, o jardim evoca muito simplesmente a VIDA. Evoca a terra, a água, a pedra, a madeira, a vegetação, o céu, o vento, o fogo (através do Sol), o calor, o frio, o seco, o molhado, a luz, a sombra, a cor, etc., etc., ou seja, todos os elementos vitais; a vida.

O jardim é o palco e o cenário onde, no plano da cultura, se representa e sintetiza a história da vida. O que o jardim simula culturalmente é a paisagem e a passagem da vida.

E daí estar em vias de extinção. No nosso tempo, a esfera da vida é cada vez mais monopólio dos industriais e das suas mercadorias. Já repararam que toda a propaganda actual ao consumo se concentra sobre o viver? A mensagem das principais agências de publicidade resume o feitiço das mercadorias à sua capacidade para dar-nos, para lá do poder, a vida.

Fora do reino da mercadoria, o comum dos mortais sente hoje uma certa relutância em reconhecer a esfera da vida, em identificá-la. E é justamente por isso que deixou de saber interpretar ou apreciar algo tão elementar e simples como um jardim.

Os jardins antigos estão hoje, em Portugal, abandonados (e são por isso tão belos: ruínas em construção). Ou então recuperados (falsificados) para agradar ao olho, mas não aos restantes sentidos, de uma burguesia que sabe entregar-se de corpo e alma aos disfarces e às aparências, mas não àquilo que contém no seu interior uma violência primordial: a violência da vida.