Estação de comboios de Milão, fotografia importada de http://telos.tv/blog/?p=544

Nos países sobre-industrializados, o espaço público enche-se de ecrãs:

são imagens coloridas e apelativas, escolhidas para penetrarem o quotidiano e o âmago de milhões de pessoas que, cada qual numa rotina atomizada, circulam por aí, em transportes públicos, estações, ruas, avenidas, áreas de consumo ou de lazer. Essas imagens, permanentemente exibidas, são-no para que as possamos observar ou para que, ao invés, possamos ser observados? É uma questão um pouco bizarra mas, na minha opinião, pertinente.

Bom, a minha hipótese, muito simples, é a seguinte: não serão essas imagens concebidas para que os olhos de alegres actores, pagos para nos divertirem + seduzirem + observarem + controlarem, nos possam impor os costumes e as modas autorizados?

Isto é: para que servem os ecrãs da sociedade do espectáculo senão para impor uma ordem em redor do consumo, da indústria, das mercadorias, uma moral, um sistema de valores, através dos olhos que, observando-nos, controlam os nossos costumes e normalizam o nosso pensar?

Para que servem os ecrãs que jamais se apagam, que jamais nos deixam divagar em paz pelos nossos pensamentos, senão para nos ancorarem violentamente no ruído agressivo de um mundo oco que, organizando-se em torno da mercadoria e nutrindo-se de capital anónimo, necessita deles para reproduzir-se?

Os ecrãs ao serviço da sociedade espectacular, e esta é a hipótese que lanço neste post, existem menos para serem observados do que para observarem. A passividade do espectador não reside pois no facto de dedicar décadas da sua existência a assistir a espectáculos que, por diferentes meios, mostram sempre o mesmo: os mesmos hábitos, os mesmos valores, a mesma moral. Ela está, isso sim, no facto de, através de todos esses anos passados diante dos ecrãs, ele assimilar passivamente uma visão específica do mundo.

As imagens dos ecrãs parecem assim dotadas de vida(s), como demonstra a sua capacidade para actuar eficazmente sobre a mente do espectador.

É a mente do espectador contemporâneo que parece estar morta (ou pelo menos adormecida), como prova a facilidade com que este se deixa normalizar por essas imagens.

E eis que chegamos à provocação de Bruno Latour: deveria criar-se um Parlamento onde também coisas inanimadas, como por exemplo ecrãs, estivessem representadas. Afinal, são elas que governam os destinos da humanidade:

o homem contemporâneo caminha sem dúvida para qualquer lado, mas fá-lo apenas porque guiado e empurrado por elas.