Numa série de interessantes textos publicados no Passa Palavra e alguns dos quais já mencionados neste blog, J. Bernardo desfere uma crítica potente, rara e profunda, pelo seu nível de fundamentação, às teses ecologistas, poucas vezes confrontadas. Concordo com parte da crítica; mas discordo de muita coisa. No entanto, a crítica faz o seu caminho: obriga-nos a repensar velhas teses que julgávamos consolidadas, para melhor percebermos o movimento ecologista e algumas das suas fraquezas.

Foto da colecção 'Architecture of Density', Hong Kong, 2006, Michael Wolf

J. Bernardo é um pensador marxista pouco ortodoxo. Muito pouco dirá ele. Mas, como qualquer marxista, seja ele muito ou pouco ortodoxo, a urbe e a produção industrializada de bens são dois dos pilares fundamentais sobre os quais assentaria a sociedade ideal, quer dizer, socialista. O problema deste pensamento não está na escolha dos seus pilares: só um visionário louco engendraria a sua sociedade ideal sem a urbe e a indústria, privando-a assim da segurança e abundância que ambas propiciam à vida humana. O problema está na mitificação de uma e outra, que assim se furtam à análise e ao juízo do pensamento crítico. Ora, nem a indústria nem a urbe devem estar imunes à crítica. Um socialismo incapaz de perspectivá-las criticamente só poderá produzir um monstro, tal como fizeram todos os socialismos.

Na linha de produção da fábrica 'Suzhou Etron Electronics Co. Ltd', Suzhou, China, 2010, Reuters

Começo esta nova série de posts com uma nota sobre a anonimidade da vida no seio da grande urbe.

Da colecção 'Architecture of Density', Hong Kong, 2006, Michael Wolf

Átomos solitários, abandonados à mercadoria industrial que fundou o ‘homem novo’ da contemporaneidade – o ‘consumidor’ (de espectáculos) -, habitam o interior de fachadas que, melhor do que quaisquer outras imagens, exprimem a impessoalidade da vida urbana. O que escondem as fachadas imensas? O que escondem o betão e o aço? O que as torna impenetráveis? Nos fluxos do dia-a-dia, a anonimidade traduz-se num isolamento que converte cada indivíduo também ele numa fachada impenetrável.  Milhares de olhares que se cruzam na carruagem para se evitarem. Milhares de olhares que se evitam sem se cruzarem. Não há um romance no ar? Uma cena de sexo no meio da multidão? Uma pulsão descontrolada, que já ninguém ousará reprimir? E a comunidade? Onde ficou “a comunidade”?

É este mundo novo a base ideal para o socialismo que há-de chegar?

Da colecção 'Tokyo Compression', passageiros na rede de metro de Tóquio, sem data, Michael Wolf