Assente sobre a ciência e o produtivismo, o socialismo idealizado por J. Bernardo (como qualquer outro socialismo, aliás), se quiser ser coerente, não requer apenas um mundo onde sejam exterminados, um por um, os povos indígenas, por serem obstáculos culturais e geográficos ao desenvolvimento quer da ciência quer do produtivismo; enfim, por serem arcaísmos repletos de irracionalismo no meio de um sistema intelectualmente perfeito e puro, que se deseja unicamente esculpido pelo racionalismo científico.

Ele requer também um mundo livre de artesãos, esses pequenos produtores/inventores que, pelo mundo fora (um mundo policentrado, cheio dessa coisa tão odiada por J. Bernardo chamada ‘multi-culturalismo’) e ao longo de gerações sem fim, nos legaram muitas das soluções de que hoje dispomos para resolver os desafios gerados pela vida quotidiana.

O mundo de J. Bernardo teria pois no seu centro único, necessariamente policiado (não costuma ser assim com os centros?), os cientistas e as fábricas, para lá das vanguardas intelectuais naturalmente. Na periferia, a caminho da aniquilação, estariam, entre outros, indígenas e artesãos; entre muitos outros, sublinhe-se. Uma espécie de mundo polpotiano (sem purgas nem torturas, esperemos) invertido, em que, ao invés de se caminhar rumo à extinção dos aglomerados urbanos (como fizeram os khmers vermelhos), se caminharia rumo à extinção do que estaria nas margens destes aglomerados.

Um mundo onde os designers industriais seriam os únicos a desenhar a matéria do nosso mundo e onde um qualquer Ikea, convertido em cooperativa ao serviço da humanidade, seria o autor exclusivo da cultura material do planeta, de Kuala Lumpur a Manaus.

O meu reaccionarismo está precisamente em lutar por um mundo poli-centrado, em que as obras de experts suecos em design industrial serão diluídas na imaginação e manipuladas pela criatividade que, doa o que doer às vanguardas socialistas, há em todos nós.

Da série "Bastard chairs", China, 2002, Michael Wolf