A segunda metrópole inglesa não tem o dom de atrair muitos visitantes, é certo.

Algures em Birmingham, 2005, foto escandalosamente roubada em http://www.urban75.org/photos/birmingham/birmingham-canals.html

Nunca ouvi a ninguém dizer que esteve em Birmingham de passeio, para deixar-se inspirar pela poesia subtil das suas paisagens ou pela beleza surpreendente da sua arquitectura. Tal como nunca o ouvi acerca de Detroit. O que é pena.

Woodward Ave, Detroit, 1942, Arthur Siegel

Ora, no entanto, há algo nestas cidades supostamente desinteressantes que leva alguns (não poucos) dos seus habitantes a serem particularmente criativos; e a serem capazes de criar a novidade, goste-se dela ou não.

Detroit pariu o techno, é sabido. Birmingham o heavy metal, esse género maximamente desprezado pelas classes médias instruídas, por causa do seu culto (ainda por cima ruidoso) ao grotesco. E também, claro, por não partilhar de nenhum dos códigos estéticos que o bom gosto burguês considera adequados. Nada do que a burguesia ocidental, habituada à boa roupa e gastronomia italianas, considera belo faz parte de um álbum de heavy metal. Da capa do disco, à sonoridade, passando pela aparência dos intérpretes ou pelas letras das canções. A elegância, a harmonia e a sobriedade, que o renascimento legou às classes cultas de hoje, não seduzem a malta da pesada.

E assim nos aproximamos da solução do dilema que mói a minha cabeça: porquê Birmingham e não Milão, Viena, Amesterdão, Munique ou Bordéus a parir uma expressão artística tão profana e marginal como esta? Porque a Birmingham de há de 3 ou 4 décadas atrás que gerou o fermento do heavy metal era uma cidade cinzenta e brutal, odiada pelas elites cultas e prósperas, amantes das belas artes, por estar profundamente marcada pelas suas paisagens industriais e suburbanas, duras, monótonas, emissoras de sonoridades desagradáveis, pouco ou nada melodiosas.

Como dizia, num congresso acerca de heavy metal, um músico de Napalm Death, sobre a música da banda, “it reflected the culture we lived in, which was one of grey, concrete, brutalist architecture and ugly, vicious sounds. A lot of us came from the fringes of the city, from zones of boredom and alienation. That must feed back into the music somehow.”

O terror, o vazio, o exagero, o mórbido, a negação da vida, encontra-se tudo isto, no heavy metal. Nas paisagens de Birmingham que pariram o género musical mais brutal e primitivo, também.