Archives for the month of: Setembro, 2012

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Alguma semelhança com o clima que vivemos em Portugal é pura fantasia:

Porque o tempo ficou demasiado curto no nosso encontro lisboeta (e que seja sempre assim, já que o tempo só fica curto quando é bem aproveitado), para falarmos de algo que, de há uns anos para cá, temos em comum (um território, uma cultura, um clima, uma paisagem, um povo, uma gastronomia, um imaginário), dedico-te, sobre esta coisa chamada Alentejo que nem eu nem tu conseguimos razoavelmente compreender ou assimilar, meia dúzia de imagens e ideias que agora me ocorrem. Singelas e desconexas. A necessitar, portanto, de um aprofundamento/questionamento, para o qual espero que contribuas.

De qualquer forma, estas imagens e ideias terão desde já o mérito de me fazerem tomar uma posição perante tudo isto (território, cultura, paisagem, etc.) que, como disse, temos em comum. E há momentos na vida em que, no meio do fluxo de acontecimentos que atravessam e inundam a nossa rotina, devemos vir à tona e parar; distanciar-nos momentaneamente deles e posicionar-nos: ganhar perspectiva para ousar pensá-los, explicá-los, entendê-los e, fundamentalmente (e eis a minha costela marxista ou, se preferires, situacionista), criticá-los. Para também assim nos entendermos e criticarmos a nós próprios – porque nos tornámos inseparáveis deles (de facto, “não somos senão o que vivemos”).

Deves, como eu, ter já reparado que não é fácil, para alguém vindo de fora, viver no Alentejo: entregar-se sinceramente a ele, aceitá-lo em paz. Porque a paz que, de lés a lés, o percorre não é verdadeiramente pacífica. Ela está envenenada. Está saturada de um desconforto existencial. Reformulando, não é nada fácil existir no Alentejo.

Repara agora na fotografia.

Vista sobre uma paisagem característica do Alentejo, 2012, Andrea Morgenstern

Não há muito para reparar, de facto. Mas sente-se, é inegável, uma paz no ar, deslumbrante, capaz de nos calar. É a paz que traz as estações do ano e que, lentamente, vai introduzindo – através de tonalidades, texturas, sons, cheiros – a sazonalidade na paisagem. Uma paz grandiosa, portanto. E bela, como tão poucas coisas o são.

Mas lá dentro há também um vazio enorme e desconcertante. Dentro dessa paz maravilhosa. Um vazio que deriva talvez do facto de nos custar a nós (homens e mulheres) encontrar o nosso próprio reflexo, humano, estampado naquela geografia arcaica, naquele território imutável, naquela paisagem tão pacífica. [E o homem é justamente o animal que permanentemente persegue o seu eu em tudo quanto o rodeia. Quando lhe custa a encontrar-se no seu mundo circundante (quase como se estivesse a procurar o seu reflexo num espelho), sente-se perdido, desnorteado.] Eu, pelo menos, que não sou, nem sei se algum dia serei, alentejano, demoro a encontrar-me naquela imensidão, onde diariamente me perco.

Campo em flor na Primavera, arredores de Évora, 2012, Andrea Morgenstern

Na Primavera, o Alentejo sorri-nos, incontido e deslumbrante, e, por momentos, ilude-nos e afasta-nos do insondável vazio para onde sempre nos vai impiedosamente arrastando, sadicamente à espera que escorreguemos para dentro de algum dos seus incontáveis poços, como acontece a tantos e tantos alentejanos (há também, e não são poucos, os que preferem enforcar-se numa oliveira, essa árvore secular que, num silêncio cúmplice, vai assistindo ao inteiro desenrolar das vidas tormentosas e sofridas dos alentejanos).

Mas a Primavera não é capaz de nos anestesiar da impressão/sensação de vazio, de carência, de ausência, que é dominante nas vidas de todos os que habitam esta região singular. Singular porque profundamente marcada por um riquíssimo passado neolítico (que lhe deixou muito mais do que os seus monumentos megalíticos; deixou-lhe também e fundamentalmente crenças e valores que transcendem claramente a nossa herança latina) e por se parecer definitivamente mais com o norte de África islamizado do que com a Europa cristã. Mas que desde 1986 é governada a partir de Bruxelas.

Olival em regime de monocultivo intensivo, Avis, 2011, Pedro Duarte

Como se vê na imagem, a burocracia sediada na Bélgica, que decide sobre o que deve e não deve ser a economia das regiões periféricas deste monstro franco-germânico que conhecemos sob a cómica designação de “União Europeia”, tem uma palavra a dizer sobre o presente e o futuro do Alentejo, cujo território se encontra doravante à sua mercê. É triste quando gente de tão longe goza de um poder tão ilimitado e absoluto para decidir sobre o que nunca, nem em sonhos, viu. E esta tristeza soma-se às outras que tão profundamente marcam este povo que vive, historicamente, cronicamente, num estado de depressão (nem precisaríamos de escutar a sua música tradicional para entendê-lo).

Na província mais deprimida e desolada de toda a Europa ocidental, os efeitos devastadores das políticas de Bruxelas, para a população (mão-de-obra subitamente expulsa dos latifúndios), para o território (desertificação e abandono do meio rural) e para a paisagem (monocultivos poluentes que desfiguram paisagens culturais e abalam o equilíbrio dos ecossistemas), vieram apenas consolidar uma velha verdade fundamental: a vida alentejana não é senão precariamente mantida, como se fosse alimentada por uma singela mangueira, corroída pela brasa de estios sucessivos, que, num fundo de desolação, lá lhe vai transportando um fiozinho de água; a foto abaixo materializa a cores esta metáfora.

Nespereira solitária numa pedreira de granito, Valverde, 2011, Pedro Duarte

A vida no Alentejo é portanto precária. Precária, como a vida de uma nespereira que o acaso quis que fosse nascer no interior de uma pedreira de granito: frágil, insegura, débil. Na verdade esta imagem descreve, apenas em parte como é óbvio, o que significa viver no Alentejo.

A imensidão da paisagem alentejana, que se repete numa ondulação igual à do oceano, jamais nos convida a mergulhar nela. Apenas nos instiga a tomarmos consciência da nossa condição de seres abandonados e perdidos no meio de uma paz que nos deixa a nós, animais sociais, culturais e políticos, absolutamente desnorteados.

Aprender a abalar essa paz (o que só se consegue a criar, a produzir, a fabricar, coisas, aventuras, relações, jogos, lugares, arquitecturas, histórias;  mas também a comunicá-los), a subvertê-la, sem paradoxalmente deixar de saber apreciar a sua inigualável grandeza, é o desafio paradoxal que se coloca a quem vive no Alentejo, para evitar ser-se esmagado por ela que, sendo sem dúvida alguma fascinante (os promotores turísticos perceberam-no, aliás, e por isso vendem-na a muito bom preço às elites stressadas da capital), tantas vidas tem dilacerado. Não deixemos que as nossas sejam as próximas.

Já todos os meus leitores terão certamente reparado que o mau gosto mais escandaloso e medonho impera nesta terra, nela encontrando um solo particularmente fértil para a sua propagação rápida, instantânea, automática. Dos cenários pimba dos telejornais da sic, aos interiores brega das casas das novelas da tvi, passando pela arquitectura assustadora e monstruosa dos centros comerciais (que assassinaram o comércio de rua) e a roupa cafona da irmã do Cristiano Ronaldo, impera uma estética muito própria – mas pelos piores motivos.

Quantos de nós não pensámos já em emigrar, em fugir daqui p’ra fora, sem sabermos exactamente porquê? (E quantos de nós não chegámos mesmo a fazê-lo? Infelizmente, ao fim de três anos, percebi que o mau gosto alemão, bem diferente do nosso, tão pouco me fazia sentir cómodo naquelas paragens… Parece que o mau gosto é um mal geral do tempo em que vivemos, se bem que neste espaço chamado Portugal ele seja preocupantemente dominante.)

O mau gosto, pois é. Um motivo obscuro, oculto, mas decisivo para fazer-nos sentir incómodos, desconfortáveis aonde vivemos. Para instigar-nos a mudar de vida.

Atentemos agora nesta imagem aparentemente banal, mas sintomática e reveladora.

Entrada para a feira Expo Jardim, Batalha, 2012, Andrea Morgenstern

Nada de especial, caro leitor? Não é bem assim. De todo o infinito e maravilhoso potencial que subjaz à criação de jardins, foi esta miserável imagem a escolhida para dar as boas-vindas a quem visitava uma feira nacional para profissionais do ramo de jardinagem: a feira anual que reúne os principais operadores portugueses nesta área profissional.

Mas o que vemos exactamente nesta imagem? Uma clareira (apenas com uns míseros tufos de flores horrorosas) que se abre num relvado (mais ou menos desgraçado) com o fim de sublinhar a presença de uma insignificante e raquítica planta de aspecto tropical. Ora, quando nos aproximamos do edifício e nos deparamos com ela, perdemos instantaneamente o estímulo para continuarmos a trabalhar neste triste paraíso do mau gosto chamado Portugal.

Ainda por cima, e ao contrário por exemplo do espampanante mau gosto espanhol, o nosso mau gosto é deprimido e triste. Produz as paisagens insípidas e desoladas em torno das quais giram as nossas vidas.

Desta vez, fazer a revolução (e vê-se cada vez mais povo a mobilizar-se para isso) terá de significar também refazer as paisagens do nosso dia-a-dia: enchê-las da magia que falta hoje na vida da maioria de nós.

Caixas pretas no meio de um choupal? Explicações?

Caixas pretas no meio de um choupal, Coimbra, 2012, Andrea Morgenstern

Caixas pretas, com uma jovem ciclista, no meio de um choupal, Coimbra, 2012, Andrea Morgenstern

Eis que alguém se aproxima para tentar explicar o inexplicável.

Caixa negra desperta a atenção de alguém que passeava no choupal, Coimbra, 2012, Andrea Morgenstern

O inexplicável, no entanto, não tem explicação. Mas vou ligar ao professor Bambo (707 20 44 88), grande médium-vidente conhecido internacionalmente pelos seus dons espirituais:

Ao longo de 28 anos de experiência
o professor Bambo ajudou milhares
de pessoas a resolverem os seus
problemas de dinheiro, sorte,
inexplicáveis. Os conhecimentos
misticos do Professor Bambo
permitem-Ihe obter resultados sérios
onde outros falham.

Confie nos Dons do Professor
Bambo, escute os seus conselhos,
aceite a sua ajuda para uma vida
melhor!

Poste de iluminação selvagem, Berlim, 2012, Andrea Morgenstern

É difícil responder a uma questão aparentemente tão simples. Nesta série de posts vou dando um singelo contributo. (Espero que haja por aí alguém com tempo para ir aprofundando melhor  a coisa. Ela merece.)

Uma paisagem característica alemã, Odenwald, 2012, Pedro Duarte

Cada paisagem pode ser vista de maneiras muito diferentes por pessoas diferentes. Se tem uma clara presença física e sensível, determinada tanto pelas condições do clima, da geografia, da botânica ou da geologia – que faz com que a sua textura possa ser experienciada com os cinco sentidos do corpo humano –, a paisagem varia de acordo com os significados que lhe são atribuídos e com as formas como é mentalmente representada por aqueles que a usam. Ela dá assim aso à criação de diversos textos – “the first human texts, read before the invention of other signs and symbols” (Anne Spirn).

O Manuel e a paisagem alemã, Odenwald, 2012, Pedro Duarte

Na medida em que estes textos não são universais mas culturalmente específicos, variando em função das culturas em que estão integrados, a ambiguidade e a polémica convertem-se em duas das características determinantes da paisagem.

O Jurgen e a paisagem alemã, Odenwald, 2012, Pedro Duarte

Nos dias de hoje, a mercantilização estende-se e amplifica-se: espacialmente, geograficamente, culturalmente.

Quer dizer: a sociedade do espectáculo prossegue calmamente a sua conquista planetária, como havia profetizado há tantos anos o único teorizador que soube compreender em profundidade o seu tempo (e o nosso), Guy Debord. Outros, que se seguiram ao singular pensador francês, inventaram a palavra ‘globalização’ para descrever genericamente a mesma conquista.

Foto promocional do Daintree Eco Lodge, Australia, 2012

‘Eco-turismo’ é um dos conceitos mais em voga para as elites do Ocidente, sempre em busca de novas mercadorias, capazes de despertar aventuras e emoções inusitadas. O surgimento deste conceito é revelador de que passou a ser possível, interessante e rentável aos operadores turísticos vender selvas virgens, santuários naturais e paisagens imaculadas. Enfim, passou a ser possível tudo vender neste mundo, onde apenas o que não pode ser vendido deve desaparecer. E desaparece mesmo…

Com esta extensão do espectáculo às selvas dos trópicos, os hotéis, perdão, os eco-lodges, passaram a fazer companhia à natureza selvagem, com os seus “micro screened balconies with outdoor Jacuzzis, televisions, CD players, minibars, air conditioning, wireless and dial up Internet access.”

O ‘virgem’ e o ‘autêntico’ passam assim a ser glorificados pelos promotores turísticos, que descobrem na burguesia recentemente seduzida pelas mercadorias sustentáveis a sua clientela predilecta.