Já todos os meus leitores terão certamente reparado que o mau gosto mais escandaloso e medonho impera nesta terra, nela encontrando um solo particularmente fértil para a sua propagação rápida, instantânea, automática. Dos cenários pimba dos telejornais da sic, aos interiores brega das casas das novelas da tvi, passando pela arquitectura assustadora e monstruosa dos centros comerciais (que assassinaram o comércio de rua) e a roupa cafona da irmã do Cristiano Ronaldo, impera uma estética muito própria – mas pelos piores motivos.

Quantos de nós não pensámos já em emigrar, em fugir daqui p’ra fora, sem sabermos exactamente porquê? (E quantos de nós não chegámos mesmo a fazê-lo? Infelizmente, ao fim de três anos, percebi que o mau gosto alemão, bem diferente do nosso, tão pouco me fazia sentir cómodo naquelas paragens… Parece que o mau gosto é um mal geral do tempo em que vivemos, se bem que neste espaço chamado Portugal ele seja preocupantemente dominante.)

O mau gosto, pois é. Um motivo obscuro, oculto, mas decisivo para fazer-nos sentir incómodos, desconfortáveis aonde vivemos. Para instigar-nos a mudar de vida.

Atentemos agora nesta imagem aparentemente banal, mas sintomática e reveladora.

Entrada para a feira Expo Jardim, Batalha, 2012, Andrea Morgenstern

Nada de especial, caro leitor? Não é bem assim. De todo o infinito e maravilhoso potencial que subjaz à criação de jardins, foi esta miserável imagem a escolhida para dar as boas-vindas a quem visitava uma feira nacional para profissionais do ramo de jardinagem: a feira anual que reúne os principais operadores portugueses nesta área profissional.

Mas o que vemos exactamente nesta imagem? Uma clareira (apenas com uns míseros tufos de flores horrorosas) que se abre num relvado (mais ou menos desgraçado) com o fim de sublinhar a presença de uma insignificante e raquítica planta de aspecto tropical. Ora, quando nos aproximamos do edifício e nos deparamos com ela, perdemos instantaneamente o estímulo para continuarmos a trabalhar neste triste paraíso do mau gosto chamado Portugal.

Ainda por cima, e ao contrário por exemplo do espampanante mau gosto espanhol, o nosso mau gosto é deprimido e triste. Produz as paisagens insípidas e desoladas em torno das quais giram as nossas vidas.

Desta vez, fazer a revolução (e vê-se cada vez mais povo a mobilizar-se para isso) terá de significar também refazer as paisagens do nosso dia-a-dia: enchê-las da magia que falta hoje na vida da maioria de nós.