Porque o tempo ficou demasiado curto no nosso encontro lisboeta (e que seja sempre assim, já que o tempo só fica curto quando é bem aproveitado), para falarmos de algo que, de há uns anos para cá, temos em comum (um território, uma cultura, um clima, uma paisagem, um povo, uma gastronomia, um imaginário), dedico-te, sobre esta coisa chamada Alentejo que nem eu nem tu conseguimos razoavelmente compreender ou assimilar, meia dúzia de imagens e ideias que agora me ocorrem. Singelas e desconexas. A necessitar, portanto, de um aprofundamento/questionamento, para o qual espero que contribuas.

De qualquer forma, estas imagens e ideias terão desde já o mérito de me fazerem tomar uma posição perante tudo isto (território, cultura, paisagem, etc.) que, como disse, temos em comum. E há momentos na vida em que, no meio do fluxo de acontecimentos que atravessam e inundam a nossa rotina, devemos vir à tona e parar; distanciar-nos momentaneamente deles e posicionar-nos: ganhar perspectiva para ousar pensá-los, explicá-los, entendê-los e, fundamentalmente (e eis a minha costela marxista ou, se preferires, situacionista), criticá-los. Para também assim nos entendermos e criticarmos a nós próprios – porque nos tornámos inseparáveis deles (de facto, “não somos senão o que vivemos”).

Deves, como eu, ter já reparado que não é fácil, para alguém vindo de fora, viver no Alentejo: entregar-se sinceramente a ele, aceitá-lo em paz. Porque a paz que, de lés a lés, o percorre não é verdadeiramente pacífica. Ela está envenenada. Está saturada de um desconforto existencial. Reformulando, não é nada fácil existir no Alentejo.

Repara agora na fotografia.

Vista sobre uma paisagem característica do Alentejo, 2012, Andrea Morgenstern

Não há muito para reparar, de facto. Mas sente-se, é inegável, uma paz no ar, deslumbrante, capaz de nos calar. É a paz que traz as estações do ano e que, lentamente, vai introduzindo – através de tonalidades, texturas, sons, cheiros – a sazonalidade na paisagem. Uma paz grandiosa, portanto. E bela, como tão poucas coisas o são.

Mas lá dentro há também um vazio enorme e desconcertante. Dentro dessa paz maravilhosa. Um vazio que deriva talvez do facto de nos custar a nós (homens e mulheres) encontrar o nosso próprio reflexo, humano, estampado naquela geografia arcaica, naquele território imutável, naquela paisagem tão pacífica. [E o homem é justamente o animal que permanentemente persegue o seu eu em tudo quanto o rodeia. Quando lhe custa a encontrar-se no seu mundo circundante (quase como se estivesse a procurar o seu reflexo num espelho), sente-se perdido, desnorteado.] Eu, pelo menos, que não sou, nem sei se algum dia serei, alentejano, demoro a encontrar-me naquela imensidão, onde diariamente me perco.

Campo em flor na Primavera, arredores de Évora, 2012, Andrea Morgenstern

Na Primavera, o Alentejo sorri-nos, incontido e deslumbrante, e, por momentos, ilude-nos e afasta-nos do insondável vazio para onde sempre nos vai impiedosamente arrastando, sadicamente à espera que escorreguemos para dentro de algum dos seus incontáveis poços, como acontece a tantos e tantos alentejanos (há também, e não são poucos, os que preferem enforcar-se numa oliveira, essa árvore secular que, num silêncio cúmplice, vai assistindo ao inteiro desenrolar das vidas tormentosas e sofridas dos alentejanos).

Mas a Primavera não é capaz de nos anestesiar da impressão/sensação de vazio, de carência, de ausência, que é dominante nas vidas de todos os que habitam esta região singular. Singular porque profundamente marcada por um riquíssimo passado neolítico (que lhe deixou muito mais do que os seus monumentos megalíticos; deixou-lhe também e fundamentalmente crenças e valores que transcendem claramente a nossa herança latina) e por se parecer definitivamente mais com o norte de África islamizado do que com a Europa cristã. Mas que desde 1986 é governada a partir de Bruxelas.

Olival em regime de monocultivo intensivo, Avis, 2011, Pedro Duarte

Como se vê na imagem, a burocracia sediada na Bélgica, que decide sobre o que deve e não deve ser a economia das regiões periféricas deste monstro franco-germânico que conhecemos sob a cómica designação de “União Europeia”, tem uma palavra a dizer sobre o presente e o futuro do Alentejo, cujo território se encontra doravante à sua mercê. É triste quando gente de tão longe goza de um poder tão ilimitado e absoluto para decidir sobre o que nunca, nem em sonhos, viu. E esta tristeza soma-se às outras que tão profundamente marcam este povo que vive, historicamente, cronicamente, num estado de depressão (nem precisaríamos de escutar a sua música tradicional para entendê-lo).

Na província mais deprimida e desolada de toda a Europa ocidental, os efeitos devastadores das políticas de Bruxelas, para a população (mão-de-obra subitamente expulsa dos latifúndios), para o território (desertificação e abandono do meio rural) e para a paisagem (monocultivos poluentes que desfiguram paisagens culturais e abalam o equilíbrio dos ecossistemas), vieram apenas consolidar uma velha verdade fundamental: a vida alentejana não é senão precariamente mantida, como se fosse alimentada por uma singela mangueira, corroída pela brasa de estios sucessivos, que, num fundo de desolação, lá lhe vai transportando um fiozinho de água; a foto abaixo materializa a cores esta metáfora.

Nespereira solitária numa pedreira de granito, Valverde, 2011, Pedro Duarte

A vida no Alentejo é portanto precária. Precária, como a vida de uma nespereira que o acaso quis que fosse nascer no interior de uma pedreira de granito: frágil, insegura, débil. Na verdade esta imagem descreve, apenas em parte como é óbvio, o que significa viver no Alentejo.

A imensidão da paisagem alentejana, que se repete numa ondulação igual à do oceano, jamais nos convida a mergulhar nela. Apenas nos instiga a tomarmos consciência da nossa condição de seres abandonados e perdidos no meio de uma paz que nos deixa a nós, animais sociais, culturais e políticos, absolutamente desnorteados.

Aprender a abalar essa paz (o que só se consegue a criar, a produzir, a fabricar, coisas, aventuras, relações, jogos, lugares, arquitecturas, histórias;  mas também a comunicá-los), a subvertê-la, sem paradoxalmente deixar de saber apreciar a sua inigualável grandeza, é o desafio paradoxal que se coloca a quem vive no Alentejo, para evitar ser-se esmagado por ela que, sendo sem dúvida alguma fascinante (os promotores turísticos perceberam-no, aliás, e por isso vendem-na a muito bom preço às elites stressadas da capital), tantas vidas tem dilacerado. Não deixemos que as nossas sejam as próximas.