Archives for the month of: Outubro, 2012

José Sá Fernandes. E até o ar ficará mais puro em Lisboa.

Terraço-lounge, Beach Destination Hostel , Lisboa, 2012, Jornal Público.

Os hostels, actualmente tão em voga, têm um papel histórico a desempenhar na gentrificação do planeta. Permitem aos jovens da classe média, com aquele ar sempre leve e descontraído (de quem vive numa redoma onde não entram as tensões da história – que se traduzem em subidas de impostos e coisas dessas) e style desleixado (hoje muito apreciado: barba por fazer, I-Phone todo riscado ou telemóvel retro, ténis de marca mas sujos…), espalhar o inglês pelos quatro cantos do mundo e viajar à caça dos mais imperdíveis e desconhecidos spots que ainda existem neste seu Lonely Planet. Novas geografias são incluídas neste projecto totalitário de levar a mercantilização ao último beco do bairro mais pobre e decadente onde o inglês teima em não ser língua franca (no Rio as favelas e os seus moradores foram assimilados pelo fenómeno, para regozijo dos turistas que viram o seu território de acção alargado).

Actualmente, “o backpacker não é o típico jovem sem dinheiro, há os que podem pagar e querem um quarto privado”, explicava Dangolia Rosickaite, directora financeira dos hostels Destination (do qual faz parte o Beach Destination Hostel), ao jornalista do Público. Era algo que já suspeitávamos.

Ikea, Hospitalet (Barcelona), 2009, J. Villaplana

A passividade é um dos temas mais fascinantes do nosso tempo. Pena ser tão desprezado.

Há quem, no lugar de passividade, use o termo entretenimento. Outros, mais arrojados, confundem-na com liberdade (o partido de Berlusconi que beneficiava do voto de todos os passivos de Itália chamava-se Il Popolo della Libertà).

Posto de turismo, Barreiro, 2012, Pedro Duarte

O Barreiro, sempre na linha da frente. (Saint-Denis, põe-te a pau!)

Um interessante documentário revela-nos o que os média diariamente nos escondem: o despertar islandês.

Voltámos à política do betão selvagem.

Mil vivas a esta coisa que insistem em apelidar de ‘democracia’!

(E se começássemos todos a pensar no nome que efectivamente deveria ser dado a esta coisa – que de ‘democracia’ conserva apenas o rodapé da fachada?)

Exposição de viaturas antigas, Belém, Lisboa, 2009, Pedro Duarte

Se ‘passivo’ for aquele que sofre uma acção sem agir, então vivemos certamente no império da passividade. Esta passividade traduz-se de múltiplas formas, quase infinitas.

Chama-se Luís Rebelo de Andrade, é arquitecto e teve a honra de (juntamente com Tiago Rebelo de Andrade e Manuel Cachão Tojal) projectar, quase 20 anos depois dos primeiros jardins verticais de Patrick Blanc, aquilo que se pode ver em baixo. Num tom sério (imagino eu), de quem parece acreditar no que diz, o ‘criativo’ português contava recentemente ao jornalista que iria gabar mediaticamente a sua obra (vai na volta e o ‘criativo’ estava mas era a gozar com o jornalista – afinal quem será aqui o otário?): “tínhamos de marcar a nossa passagem por este mundo. Não podíamos fazer um revivalismo qualquer, mas alguma coisa inovadora, que se destaque do que há no mercado.”

Revival: jardim vertical em edifício na Lapa, Lisboa, 2012

Há uma lista que põe tudo às claras.

Se a sua casa estivesse a arder, o que levaria consigo para fora dela? (Eis uma reflexão sobre interesses e prioridades, enfim, sobre identidades.)

PS: nos tempos que correm, também apetece perguntar: se visse uma casa a arder, quem é que gostaria de meter lá dentro?