A decadência está definitivamente fora de moda. Todos a combatem, tanto à esquerda (o progressismo, que radica sobre a democratização da prosperidade, é por definição o seu oposto) como à direita (o conservadorismo considera-a imoral). Quem resta para apreciá-la? Desde os situacionistas que ninguém se organiza para defender o direito à existência da ruína, da degradação, daquilo que lentamente se encaminha para o fim.

Muro no jardim do Convento do Bom Jesus, Valverde, 2012, Andrea Morgenstern

Uma sociedade que permanentemente elimina as suas ruínas é uma sociedade que procura extirpar da vida a caducidade, a transitoriedade, enfim, o tempo que passa (e que ao passar deixa a própria marca da sua trajectória), numa palavra, a decadência (do verbo cadere ‘cair’).

Mas não será uma sociedade sem lugar para o declínio e o abandono uma prisão para todo o ser em devir (cuja vida, limitada ao interior desse cárcere, ficará imobilizada, cristalizada no tempo)?

Jardim do Convento do Bom Jesus, Valverde, 2011, D. Alvarez

Nesta sociedade do espectáculo (ou da mercantilização, onde só cabe o que é especulável) não existe passado (o luto é socialmente desencorajado e a memória brutalmente banida já que abre uma perspectiva que permite questionar o presente) nem se acredita no futuro (é precisamente por não se postular a possibilidade de um amanhã que se delapidam no presente os recursos biológicos do planeta).

A vida desenrola-se circularmente, retornando por isso sempre ao ponto inicial, de um modo previsível (triste, até: não é por acaso que a sociedade do espectáculo é a sociedade que generalizou a depressão), num presente perpétuo.

A ruína é aquilo que teimosamente escapa ao presente: remete para a diacronia do passado e flui descontroladamente para o futuro. É a mais pura manifestação do tempo. Nela o tempo encontra o seu espaço predilecto. Ela é, se assim poderíamos dizer, o espaço do tempo.

Parede do Convento dos Monges, Serra de Monfurado, 2012, N. Ziller