Cemitério de Oliva de la Frontera, Espanha, 2012, N. Ziller

Há cemitérios espanhóis que me recordam certas obras de grandes mestres da arquitectura contemporânea: plasticidade sóbria, devidamente desinfectada de germes e bactérias, com formas depuradas, e linhas paralelas e perpendiculares que, dada a sua perfeita rectilineidade, facilmente destronam as linhas que o professor Antunes desenhava no quadro nas minhas aulas de matemática do liceu.

Nesta contemporaneidade asséptica e geométrica (geometria e assepsia combinam-se, complementam-se, necessitam-se), não faltam casas de vivos que me recordem casas de mortos; e vice-versa. Casas sem aroma nem cor nem ornamento. (Onde foi sepultada a sensualidade?) A continuidade entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos tornou-se perfeita: a “banalidade plana do real” (Appel), a que a arquitectura (a contemporânea e a cemiterial) constrói o devido cenário, uniu esses dois mundos em definitivo. “E contudo toda a gente quer respirar e ninguém pode respirar e muitos dizem: ‘Respiraremos mais tarde’, e a maior parte não morre, porque já estão mortos” (Vaneigem). Perdoem-me os crentes neste mundo Pritzker, mas hoje apetece-me destruí-lo…

Cemitério de Oliva de la Frontera, Espanha, 2012, N. Ziller

A geometria é a disciplina que, pela análise de formas ou imagens, chega a verdades eternas. Para os geómetras, uma forma com quatro lados iguais, perpendiculares, possuindo quatro ângulos rectos, é sempre um quadrado, qualquer que seja a cor deste ou a sua função. O mundo Pritzker, que é dominado pela geometria, uma disciplina que tem por objecto de estudo realidades sem ‘vida’, seja esta de pessoas, germes ou bactérias, também prescinde da história, da memória e dos lugares para materializar-se. O mundo dos cemitérios ibéricos é igualmente dominado pela geometria, como documentam estas fotos. Mas, ironia das ironias, a geometria pritzkeriana (Siza, Ando, Nouvel, Koolhas…) raramente ganha a vida que acaba por alcançar os cemitérios.

Cemitério de Oliva de la Frontera, Espanha, 2012, N. Ziller