“Durante a minha participação pacífica na manifestação da Greve Geral frente à Assembleia da República a polícia dispersou os manifestantes com foguetes, bastões e balas de borracha. Eu, como milhares de pessoas, corremos pelas ruas do Largo de São Bento para evitar bastonadas. Não querendo confusão, eu e os meus amigos seguimos pela 24 de Julho, no sentido do Cais do Sodré a caminho de casa. Fomos surpreendidos por um grupo de polícias fardados a correr atrás de nós e, pela frente, homens não fardados mas armados ordenaram que nos deitássemos. Deitei-me de barriga para baixo e gritei “por favor não me faça mal” duas ou três vezes. A resposta do homem não fardado foi clara – uma bastonada na nádega direita e outra nas costas com marca bem visível. Fui algemado enquanto me gritavam que não me mexesse. Entretanto trocaram as algemas por braçadeiras, bem mais desconfortáveis. Fui revistado (não possuindo nada de ilegal ou ilícito). Um agente da PSP rebentou as abas da minha mochila para ma tirar das costas através das braçadeiras que me prendiam os braços. Fui empurrado para uma carrinha da PSP com 6 lugares, onde me fizeram sentar na parte de cima da roda, nas traseiras. Fomos transportadas 9 pessoas na carrinha de 6 lugares. Chegado ao Tribunal fui revistado mais duas vezes e, descalço, fui colocado numa cela com mais 4 pessoas, um deles com ferimentos na cabeça e costas, com sangue a cair na cela. Outro, um menor, de 15 anos, foi libertado com aflição pelos agentes ao aperceberem-se da detenção ilegal do menor. Eu pedi várias vezes para fazer o telefonema a que tenho direito. Responderam-me que “aqui não há telefones”. Insisti com diferentes agentes que sempre me recusaram esse direito. Nenhum dos agentes que me detiveram e revistaram estavam identificados, tendo retirado a placa com o seu nome. Nenhum dos agentes no tribunal estava identificado. Horas depois fui chamado a uma sala onde fui coagido a assinar um Auto de Identificação com os meus dados mas em branco no “local, hora e motivo da detenção”. Questionei o agente que me disse ser um procedimento normal, que depois eles preencheriam o resto “para bater certo com os outros detidos”. Insisti não me sentir à vontade para assinar um papel que será preenchido depois. O Agente colocou, então, o local de detenção mas recusou-se a pôr a hora e motivo. Foi-me dado a entender que bastaria assinar para ser libertado. Coagido, assinei. Levaram-me para a rua, para a porta do tribunal, onde, já libertado, confirmei que não tinha direito ao telefonema. A minha advogada foi impedida de entrar enquanto lá estive, foi impedida de ver os papéis que assinei. Chegado cá fora pedi aos agentes de serviço que me facultassem uma cópia do Auto que assinei, ou que o mostrassem à minha representante. Esse acesso foi negado com o argumento de que “já não estava detido”. Saí sem nenhuma acusação ou explicação para o sucedido. Conclusão: Estou no Cais do Sodré a caminho de casa (ali perto) quando homens não fardados me agridem, me algemam e detêm durante horas, sendo libertado cerca das 00h em Monsanto, sem forma de voltar a casa ou ao local de detenção. Não me foi feita acusação nem dada qualquer explicação. Foi-me recusado telefonar e também me foi recusado ver a minha advogada, como é direito de qualquer pessoa detida. O meu dia foi transtornado, fui agredido, e nenhuma explicação me foi dada. Foi uma experiência miliciana.”

Fábio Filipe Varela Salgado, BI 13018976, DN 8/4/1986

Lisboa, 15 de Novembro de 2012