Ao ver recentemente o espantoso filme ‘Outro País’ de Sérgio Tréfaut (1999), que mostra como o processo revolucionário de 74/75 foi documentado por dezenas de importantes documentaristas, repórteres e fotógrafos estrangeiros (que vieram para Portugal durante esse período singular), pude recordar como a revolução foi festejada, vivida, desenvolvida, reproduzida e multiplicada pelo povo português no seu quotidiano. Quem esteve em Portugal nesse período testemunhou uma felicidade e uma euforia incontidas que contrastavam com a atmosfera tensa do Portugal fascista: durante um breve ano, o mundo das elites portuguesas fora desmontado, dando lugar a um mundo inteiramente novo, onde nada foi como dantes.

Quase 40 anos volvidos sobre um dos mais belos e paradoxalmente desconhecidos acontecimentos de toda a história contemporânea, os segmentos contra-revolucionários da sociedade (com as suas marionetas políticas PS/PSD/CDS) preparam-se para concluir a tarefa histórica de enterrar a revolução. Nada de novo, afinal: qual foi a revolução que não acabou morta? Se em todas as épocas existiram revolucionários é porque é sempre necessário refazer as revoluções perdidas, prepará-las, semeá-las novamente.

A imprensa tem revelado um sintoma particularmente evidente de que o 25 de Abril foi definitivamente enterrado: como no tempo do fascismo, são agora as instituições de caridade, elogiadas e apresentadas como a parte mais virtuosa da sociedade, que matam o frio e a fome aos pobres. Como revelam com pompa os noticiários, é a caridade católica fascista quem vem desempenhar o papel ‘redistribuidor’ deixado vago pela demissão do estado revolucionário.

O fascismo voltou. E os pobres, alguns pobres claro, voltarão a ter a sua sopinha quentinha e uma mantinha para pôr pelas costas.

Com o regresso do fascismo, volta a pobreza. Para ficar.