Andei toda a vida a ouvir economistas defenderem, a uma só voz, que a grande vantagem do regime capitalista é o facto de ser ‘liberal’, ou seja, de assentar sobre um mercado livre onde, sem a interferência do estado, diferentes actores independentes (que hoje são basicamente grandes multinacionais) competem entre si para conseguirem tornar os seus produtos atractivos aos consumidores. Estes teriam tudo a ganhar e nada a perder dessa salutar concorrência, pois, quanto maior ela fosse, mais os preços dos produtos teriam tendência para baixar. Assim me foi contado, em horário nobre.

Depois de décadas a engolir o único argumento razoavelmente válido para defender a selva capitalista (repito, o único), dou por mim a descobrir a notícia (dada pela Antena 1 há poucas semanas) de que nove fabricantes mundiais de aparelhos de electrónica mantiveram reuniões secretas onde concertavam preços. Isto faz-me pensar também nos preços dos combustíveis, das telecomunicações e de tantos outros sectores onde, coincidência das coincidências, cada operador arranja sempre forma de tornar o seu preço idêntico ao da ‘concorrência’.

Para que serve o liberalismo se, no final, pagamos exactamente a mesma factura na Galp ou na Repsol, na Vodafone ou na Optimus, e se para lá disso o capital que irriga essas multinacionais é tão frequentemente propriedade dos mesmíssimos investidores?

E se este ‘liberalismo’ não passasse afinal de uma ditadura decalcada de tantas outras?

E se este pesadelo, como qualquer outro, precisasse de ser abruptamente interrompido?