Recentemente, tem-se imposto em Portugal (onde tudo chega com um certo atraso, quando chega) um novo mito, que poderíamos muito sucintamente formular assim: o que é natural é bom.

Esta valorização da Natureza – iniciada há décadas por esquisitas criaturas ecologistas de cabelo comprido pouco adeptas do capitalismo e respectivos estilos de vida – converteu-se hoje numa das principais construções mentais da contemporaneidade. Aquilo que era património de marginais discriminados e odiados pela normalidade instituída deslocou-se para o centro da sociedade. Quem diria?

Moradia com "cobertura ajardinada", Bom Sucesso Resort, Óbidos

Moradia com “cobertura ajardinada”, Bom Sucesso Resort, Óbidos

O imaginário da burguesia poluidora (que nem sequer Kyoto consegue cumprir) foi permeado pelo estereótipo de que o verde e o natural simbolizam algo de automaticamente positivo. No Bom Sucesso Architecture Resort, Leisure & Golf (local a visitar urgentemente apesar dos seus pouco hospitaleiros seguranças), por exemplo, as fortalezas privadas desenhadas por grandes génios dessa peculiar forma de arte fúnebre que é a arquitectura contemporânea são empacotadas em vegetação, em natureza, em, como lhes chamam, coberturas ajardinadas. Estes invólucros verdes, agora na moda, traduzem uma muito curiosa sobreposição de mitos contemporâneos: o mito do natural sobrepõe-se sobre o (já aqui tratado e não menos actual) mito da neutralidade – que se exprime no branco imaculado das luxuosas fortalezas privadas, símbolo da higiene, da pureza e da inocência, a que as elites contemporâneas abundantemente recorrem para aliviar a sua má-consciência (que deriva de serem as grandes privilegiadas por um sistema económico que é, como toda a gente sabe, contrário à equidade e aos mais elementares direitos humanos).

O mito da 'neutralidade' empacotado dentro do mito do 'natural', Bom Sucesso Resort, Óbidos

O mito da ‘neutralidade’ empacotado dentro do mito do ‘natural’, Bom Sucesso Resort, Óbidos

Inúmeras representações e idealizações do puro, do não-poluído, do ecológico penetram o imaginário da classe mais favorecida pela economia global. À medida que promove a rápida destruição do planeta, esta classe aumenta paradoxalmente o seu interesse pelo que está no pólo oposto daquilo que favorece essa destruição. Este comportamento esquizofrénico exprime-se em múltiplos exemplos, dos quais agora me ocorrem os seguintes:

  • quanto mais auto-estradas arrasam paisagens e lugares rurais por esse mundo fora, mais os seus habituais utilizadores se sentem atraídos pelo mundo rural arrasado, onde procuram instalar as suas segundas casas;
  • quanto mais produtos químicos contêm os alimentos que se vendem nos super-mercados, mais os seus consumidores, quando possuem uma hortinha minúscula no seu jardim, desejam mantê-la livre de adubos químicos e herbicidas;
  • quanto mais culturas ultra-intensivas de eucaliptais, pinhais, olivais, vinhas, etc., se estendem pelo território, convertendo-o em desertos verdes fabricados para multiplicar o capital investido, mais as poucas paisagens selvagens que ainda se conservam no planeta despertam a curiosidade turística e animam as suas excursões;
  • quanto mais a expansão geográfica da produção de mercadorias para a burguesia contribui para extinguir da Natureza os animais selvagens, onde se devem incluir as abelhas, mais esta burguesia (que frequenta os shopping e os hiper-mercados onde se vendem as mercadorias que resultam precisamente dessa expansão geográfica do capitalismo) gosta de assistir aos maravilhosos documentários sobre vida selvagem da BBC e da National Geographic;
  • quanto mais restos de medicamentos (através do lixo mas também da urina) se dispersam pelo meio ambiente, mais as saudáveis mezinhas tradicionais ganham novo fôlego;
  • quanto mais os hotéis da burguesia destroem massivamente, uma por uma, as paisagens mais deslumbrantes do território, mais o eco-turismo se impõe como a nova Meca do lazer burguês;
  • quanto mais a água que sai da torneira é tratada quimicamente, mais os spas de puras águas termais gozam de um prestígio crescente;
  • etc., etc.,

Estes diversos exemplos traduzem a centralidade que uma mesma ideia possui hoje para a burguesia que artificializa, polui e destrói massivamente o planeta (enquanto procura convertê-lo num shopping global onde tudo se converte em espectáculo para ser vendido e consumido): o que é natural é bom.

Vai umas férias nos Açores este Verão, entre florestas, prados, cascatas e as baleias do oceano?