Nalguns meios da ecologia, corre a discussão sobre os efeitos da introdução na nossa paisagem de plantas exóticas em detrimento das ‘autóctones’. Existe, como é sabido, o risco daquelas plantas se tornarem terríveis pragas, incontroláveis, sacrificando os frágeis equilíbrios do ecossistema. Mas esses ecologistas, que comem tomate, batata, laranja, azeite e bebem vinho (tudo produtos ‘exóticos’, que a civilização – e não o ecossistema lusitano – fez chegar até nós), não se rebelam apenas contra as plantas que se tornam verdadeiras pestes, desequilibrando gravemente o biossistema: qualquer planta vinda de qualquer lugar distante, mesmo que depois de introduzida conviva pacificamente com o resto, é para eles uma peste.

Mas de onde vem esta xenofobia vegetal que, na maioria dos casos, não tem qualquer fundamento ecológico?

E qual poderia ser, por outro lado, o seu fundamento cultural, sabendo que não existem culturas que não sejam mestiças?

E, já agora, onde poderíamos encontrar um fundamento paisagístico, sabendo que uma paisagem ‘autóctone’ – como as que encontraríamos na Gronelândia, na Antártida ou em Marte – é, de acordo com as mais consensuais definições de ‘paisagem’, uma ‘não-paisagem’, já que marginal à intervenção humana que é, por definição, criadora de geografias transgénicas, impuras, miscigenadas?

(E porque é que a roupa que os defensores das paisagens autóctones vestem, a música que ouvem, os alimentos que ingerem ou a arquitectura que os abriga não é alvo de um exame igualmente xenófobo?!)

Tipuana tipu, espécie exótica, proveniente do Paraguai e recentemente introduzida na paisagem portuguesa, Lisboa, 2012, Andrea Morgenstern]

Tipuana tipu, espécie ‘exótica’ proveniente do Paraguai, Lisboa, 2012, Andrea Morgenstern