Há múltiplas formas de ocupar paisagens. Em Portugal, há quem as ocupe simplesmente para matar a fome.

Faval em bomba de gasolina desactivada, Alcáçovas, Alentejo, 2013, Pedro Duarte

Faval em bomba de gasolina desactivada, Alcáçovas, Alentejo, 2013, Pedro Duarte

Num canteiro de uma bomba de gasolina fora de uso na vila das Alcáçovas, Alentejo, está prestes a florir um singelo faval que aí fui descobrir.

No Alentejo, as favas não dispensam a companhia de umas rodelas de chouriço, uns dentes de alho, um raminho de coentros e hortelã, salada de alface bem temperada e umas fatias de pão alentejano.

Faval... 2013, Pedro Duarte

Faval… 2013, Pedro Duarte

Durante o Estado Novo, as saborosas favadas mataram literalmente a fome a muitos alentejanos, como me explicaram vários amigos nonagenários. Por se tratar de uma cultura de Inverno/Primavera, não requer qualquer rega para lá da chuva que é, como sabemos, grátis. Para lá de matar a fome, é uma cultura que, por fixar o azoto no solo, beneficia culturas posteriores no mesmo local.

Quarenta anos após o fim do fascismo, eis que voltam a ocupar-se improváveis paisagens para que favas sejam semeadas com o propósito de matar a fome que volta a irromper e alastrar pelo país.

Faval... 2013, Pedro Duarte

Faval… 2013, Pedro Duarte

O rio do tempo jamais pára de correr, transportando as suas águas para destinos que ninguém sabe prever; mas a história, essa, repete-se constantemente, de modos infelizmente demasiado previsíveis.