Foi num qualquer dia de 2011 que, às quatro e meio da manhã, uma centena de homens armados, contratados pelo governo local, arrasaram e desfizeram toda uma favela que se procurava reerguer após um terrível incêndio que deixara dezenas de pessoas sem abrigo.

Apesar de raramente terem a honra de receber a luz dos focos do espectáculo informativo, que não costuma dedicar-lhes demoradas reportagens, as favelas são habitadas por cerca de um sexto da população mundial. Ouviu bem: um sexto!

Periodicamente, uma boa parte delas (com a notável excepção das que, por se converterem em atracção turística, são absorvidas pelo capitalismo, como sucede actualmente no Rio) são visitadas por bulldozers, ou por homens mascarados de bulldozers, que as arrasam para que no seu lugar possa dar à luz mais um filho da imparável sociedade do espectáculo: um condomínio fechado, uma urbanização, um shopping, um estádio de futebol, uma auto-estrada, um aeroporto – que é o mesmo que dizer uma genial obra de arquitectura contemporânea.