Um dos programas intelectualmente menos estimulantes da rádio pública é o Contraditório (todas as sextas depois das 19h). O Consenso que há décadas governa o país encontra no Contraditório a expressão radiofónica acabada.

No Contraditório, era costume destacar-se a superior participação de Carlos Magno, quem tratava cada um dos políticos portugueses mais conservadores como velhos conhecidos (na verdade, não duvido que fossem vieux compagnons de route). Magno jamais mascarava a sua proximidade e admiração pelos homens (deputados, ministros) que, pelo seu firme compromisso com os interesses económicos entretanto instalados, reduziram o 25 de Abril à miragem distante em que hoje se tornou. Às opiniões de Magno não faltava nenhum dos ingredientes que condimentam o zeitgeist actual.

A mesma marca profunda que esta época deixava na substância esmiuçada pelas suas análises deixava-a também nas próprias análises – as análises do magno comentador e a substância (os factos políticos) a que estas se referiam eram feitas da mesma massa, graças a uma farinha uniformizada, que era importada de Bruxelas e Washington e certificada pela ASAE.

Nomeado presidente da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (pensará o leitor mais inocente: mas como poderá alguém com um pensamento tão tendencioso ‘regular a comunicação social’?), Magno passou o testemunho deste banal pensamento único que inunda (para quase nos afogar) os média a Raul Vaz, que veio ocupar o seu trono, na sala do Contraditório, que vigia e valoriza, uma por uma, as ‘semanas políticas’ deste brando país.

Para R. Vaz, os políticos que comandam os destinos da nação são decisores ponderados, homens justos, equilibrados e responsáveis, que às vezes lá cometem os seus erros, “mas afinal quem não os comete?” O experimentado Doutor Portas, o responsável Doutor Passos Coelho, o inteligentíssimo Doutor Barroso, o honesto Doutor Gaspar, enfim, os respeitáveis Doutores de turno (note-se que para Vaz não é o doutoramento que faz os doutores, é a política) fazem “o que pode ser feito”, “o que as exigentes circunstâncias obrigam”, e é nesse sentido que reformam o nosso Estado.

Este pensamento único de que, antes de simplesmente servir as pessoas, a política deve servir a economia e os seus Senhores (e de que tudo em política deve ser ponderado em função de tal pressuposto) flui tranquilamente pelos média. Não há comentador que o contradiga. Vivemos num tempo sem contraditório. O único contraditório que existe é o da Antena 1, mas este repete-nos, desgraça após desgraça, que quem governa há-de levar-nos a bom porto. Somos nós, aquele milhão que saiu à rua no Sábado, que andamos todos enganados, incapazes de entender que o caminho exclusivo para alcançar o bom porto é aquele para onde nos leva o pensamento único.

Uma vez mais, é Raul Vaz quem tem razão. A sua incomparável sabedoria deve acalmar a nossa indignação: “dentro do barco temos todos de remar para o mesmo lado” (programa de hoje).