O homem constrói o seu mundo de modo a colocar-se ao abrigo da mais bela de todas as manifestações: a passagem do tempo. E é justamente no interior desse mundo, domesticador do tempo e da violência que este contém, que a percepção da sua irresistível passagem mais fascina, pelo contraste que causa no mundo plano em redor (mundo regido por calendários, rotinas, ciclos).

Villa abandonada no centro do Porto, 2012, Andrea Morgenstern

Villa abandonada no centro do Porto, 2012, Andrea Morgenstern

Villa abandonada... Andrea Morgenstern

Villa abandonada… Andrea Morgenstern

A beleza da passagem do tempo é a beleza do não-cíclico, daquilo que não se repete, do que ainda não aconteceu. Só a passagem do tempo é fonte de novidades verdadeiras. Uma sociedade obcecada com a domesticação do tempo é uma sociedade que limita a aparição do novo.

Villa abandonada... Andrea Morgenstern

Villa abandonada… Andrea Morgenstern

Mas mesmo em sociedades obcecadas com a criação de sistemas e rotinas, como a nossa (cuja geografia não concebe senão dois pólos cada qual com as suas rotinas: o pólo do trabalho e o do consumo), existem sempre heterotopias como esta villa abandonada no centro do Porto, abençoada pela passagem do tempo.

Descobrir e comunicar essas heterotopias passará a ser também um dos propósitos deste blog.