“A perda da qualidade, tão evidente a todos os níveis da linguagem espectacular, dos objectos que ela louva e das condutas que ela regula, não faz senão traduzir os caracteres fundamentais da produção real que repudia a realidade: a forma-mercadoria é de uma ponta a outra a igualdade consigo própria, a categoria do quantitativo. É o quantitativo que ela desenvolve, e ela não se pode desenvolver senão nele.” (in: A Sociedade do Espectáculo, Guy Debord, 1967)

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Supermercado, Évora, 2013, Pedro Duarte

Supermercado, Évora, 2013, Pedro Duarte

Desde que, na despensa de casa da minha avó, fui há uns anos descobrir um frasquinho de mel cujo rótulo informava ser composto por uma misteriosa ‘mistura de méis originários e não originários da U.E.’ que me apercebi de um facto que não creio ser menor: os supermercados vendem hoje autênticas maravilhas, cheias de “subtilezas metafísicas”, que ultrapassam largamente as capacidades cognitivas do cérebro do comum mortal.

Antes do mel ‘global’, vieram os iogurtes com pedaços de fruta ‘verdadeira’ (quer dizer que antes desses, conhecêramos apenas os iogurtes com pedaços de fruta ‘falsa’). Depois veio a carne picada ‘de vaca’ que afinal era ‘de cavalo’. A lógica deixou de conseguir justificar o que hoje, subterraneamente, se vende nas atractivas prateleiras do supermercado. A lista seria imensa: frutas brilhantes que satisfazem a vista mas raramente o paladar ou a saúde, champôs que nos fazem animais mais sedutores mas que se revelam os piores inimigos do couro cabeludo…

A Sociedade do Espectáculo” ajuda-nos a compreender, talvez como nenhum outro livro, o que realmente acontece no supermercado. O facto de muito pouca gente ter lido este livro explica, na minha opinião, porque é que tão poucos escrevem sobre esse (não-)lugar, apesar deste estar milimetricamente situado no centro da vida contemporânea, pois tudo gravita em seu torno: (a) o acesso das classes médias ao pseudo-conforto que lhes acena a publicidade, (b) a exploração das matérias-primas e das fábricas do terceiro-mundo (para que o pseudo-conforto não fique muito caro), (c) as super-competitivas multinacionais que monopolizam as produções, (d) os pequenos produtores que cessam de produzir por ‘falta de competitividade’ (vendo-se por isso obrigados a migrar para as favelas que se multiplicam pelas metrópoles do ‘terceiro mundo’), (e) as contaminações que causam, na fase de produção intensiva, as mercadorias aí vendidas, (f) o urbanismo que refaz a cidade de modo a torná-la refém do consumo…

Que os políticos jamais falem do supermercado é sintomático do desinteresse generalizado destes por subverter, transformar, questionar o mais ínfimo detalhe (social, cultural, urbanístico, ambiental…) dos nossos quotidianos, dos nossos mundos, daquilo que efectivamente se passa diariamente no nosso planeta. A política há muito que se divorciou do real. E é exactamente por causa desta brutal demissão da política de querer determinar a construção da base real da nossa pólis que o frasquinho de mel de casa da minha avó continuará a ser esquizofrenicamente ‘originário e não-originário da U.E.’.

Supermercado..., Pedro Duarte

Supermercado…, Pedro Duarte

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O espectáculo é uma permanente guerra do ópio para fazer aceitar a identificação dos bens às mercadorias; e da satisfação à sobrevivência, aumentando segundo as suas próprias leis. Mas se a sobrevivência consumível é algo que deve aumentar sempre, é porque ela não cessa de conter a privação. Se não há nenhum além para a sobrevivência aumentada, nenhum ponto onde ela poderia cessar o seu crescimento, é porque ela própria não está para além da privação, mas é sim a privação tornada mais rica.” (in: A Sociedade do Espectáculo, Guy Debord, 1967)