O episódio, infelizmente, é verídico (e demonstra que, essencialmente no sul de Portugal, a paisagem, enquanto valor cultural, nada representa para as pessoas):

Terminada a obra de reconstrução de todo o espaço exterior de uma casa particular no Alentejo, exclama a senhora que limpa e cuida da casa para uma vizinha: “E agora aonde é que eu despejo o balde?”

Antes da obra, a senhora podia despejar o seu balde em praticamente qualquer sítio: em redor da casa, todo o espaço podia receber as águas turvas e contaminadas do balde, desempenhando assim a função de esgoto. Depois da obra estar concluída (pavimentos e canteiros terminados), o balde passou a ter de ser despejado no terreno vizinho, o qual, passível de desempenhar em qualquer momento a função de esgoto, despertava inveja na senhora (“Hmmm, era de um terreno assim que eu precisava aqui à beirinha da porta”).

A noção de paisagem que os povos do Neolítico já possuíam, como demonstra a complexa relação que os seus monumentos megalíticos tinham com a paisagem envolvente (exemplificada pelo famoso recinto dos Almendres, Évora), perdeu-se nalgum momento da história – pelo menos para estas gentes do Sul, tão preocupadas em ter, junto às zonas habitadas, locais onde despejar o balde. Entre o esgoto e a paisagem, o alentejano contemporâneo prefere o esgoto (é pelo menos assim com TODOS os meus vizinhos).

Para quem constrói ‘paisagem’, Portugal é um excelente país para emigrar para outro lado qualquer.