O homem português adora ‘ver as notícias’. Despede-se dos amigos e lá vai ele, sisudo e apressado, ver as notícias.sic_2009-12-31_130445

Gosta de vê-las em casa. Às 13h ou às 20h, tanto lhe faz. Se a comida não está pronta, senta-se no sofá. Mas o que ele gosta mesmo é de vê-las da mesa de jantar, por entre os vapores que fumegam do prato e a acústica ambiente da família que paira igualmente no ar: “cala-te! não vês que estou a ver as notícias…” grita ora para o filho ora para a mulher.

Em Portugal, as notícias ‘vêem-se’. Enxergam-se. Observam-se. Contemplam-se. Só os cegos não sabem o prazer e a calma interior que advêm de ‘ver as notícias’. Em muitos restaurantes em que durante as refeições se tira o som à televisão, as pessoas – donos, empregados, clientes – olham à mesma fixamente para elas, ainda que não as possam ouvir; apenas contemplá-las. E lá ficam a ‘ver as notícias’: o discurso de Cavaco Silva, o terramoto na Índia, as paragens de autocarro cheias de pessoas indignadas pela greve e o comboio que descarrilou algures; os incêndios, Obama de visita a um país asiático, pescadores desaparecidos e os golos de uma final; banhistas numa praia do Algarve, a fábrica que exporta mais sapatos para o Brasil e o aniversário do elefante mais velho do zoológico de Tóquio.

O homem português ‘vê’ as notícias (as suas cores, movimentos, explosões, poses, penteados… enfim, há tanto para ‘ver’ nas notícias) de um mundo que não compreende; e é justamente por não compreender que ele gosta tanto de vê-las, uma e outra vez, ad aeternum, à espera que a continuação solucione o enigma, como sucede com as novelas. As imagens do noticiário, em vez de levarem a realidade do seu mundo e da sua vida ao homem português, levam o homem português ao mundo novelesco dos média, um mundo que lhe é em tudo exterior e onde o que é representado são eventos marcantes, espectaculares, sempre repetidos e sempre distantes do observador, ou seja, desligados da vida de quem observa, como se se tratassem de fragmentos de um filme de Hollywood que o realizador deixou desconexo e inacabado.