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Vilamoura, Algarve, foto promocional

Um artigo do jornal Público revelava hoje, com despudorado detalhe, num texto assinado por Andreia Marques Pereira, os Segredos da costa alentejana, “um dos últimos refúgios europeus”. Imediatamente pensei: será que estes palhaços dos média não se dão conta de que um segredo, uma vez publicado (reproduzido através de milhares de cópias), se dilui, se desfaz, caminha a passos largos para a sua extinção? E aquilo que se encontrava conservado, mantido à margem do espectáculo, é subitamente devassado pelas águas furiosas e devastadoras do grande rio da mercantilização e do consumo…

A jornalista do Público, que (para simplificar os passeios dos seus milhares de leitores) até revelou as coordenadas gps de cada um dos “últimos segredos do litoral alentejano”, está consciente de que as consequências destas praias singulares ganharem muita divulgação “podem ser danosas, o fantasma do desvario algarvio“, escreve ela (e eu apenas sublinho). O seu contributo mediático concorre pois para a propagação do ‘desvario algarvio’ pelas nossas costas quase virgens.

Contributo paradoxal, de facto: enquanto celebra a beleza intacta das últimas pérolas das costas europeias, acelera a sua dilapidação. Nenhuma novidade, infelizmente: apenas mais uma irracionalidade da mediatização que, sem jamais medir as consequências arrasadoras daquilo que diz, dá o seu imprescindível contributo para a fatal e inexorável extensão do império da mercadoria, retirando das margens deste, um por um, os territórios, as paisagens e os lugares que ainda não tinham sucumbido a esta autoridade suprema.

(Será que não se arranja um trabalhinho, ou um biscate como agora se diz, para esta simpática jornalista na redacção do Lonely Planet, publicação especializada como nenhuma outra em eliminar as margens que ainda subsistem face à influência irresistível e unificadora da mercadoria?)